Um avião comercial de passageiros da companhia Emirates desistiu de pousar em Cabul, capital do Afeganistão, neste domingo (15) e retornou ao ponto de origem, em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. É um sinal de que a tomada do Afeganistão pelo Talibã já afeta o tráfego aéreo de passageiros para o país.
A decisão foi tomada diante do cerco de militantes do grupo extremista à cidade e a consolidação de sua volta ao poder no país com a fuga do presidente para o exterior. A companhia informou que a pista do aeroporto da capital foi fechada.
“Devido ao fechamento temporário imprevisto da pista no momento da aproximação do avião no Aeroporto Internacional Hamid Karzai, o voo EK 640 da Emirates para Cabul operando em 15 de agosto voltou para Dubai”, informou a companhia aérea dos Emirados Árabes Unidos.
A companhia Flydubai, também propriedade do governo de Dubai, suspendeu temporariamente suas operações em Cabul. Um outro avião, da companhia indiana Air India, também sobrevoou Cabul em círculos por 45 minutos diante da insegurança em relação ao aeroporto, mas acabou pousando por volta das duas da tarde, horário local.
Os combatentes do grupo militante entraram nos arredores de Cabul neste domingo, enquanto os EUA e outras nações corriam para evacuar seus cidadãos. As forças do Talibã agora controlam todas as travessias de fronteira do Afeganistão, deixando o aeroporto de Cabul como a única rota de saída.
Fuga
O governo do Afeganistão entrou em colapso neste domingo com a fuga do país do presidente, Ashraf Ghani, e a entrada do Talibã na capital, Cabul — marcando, na prática, a volta do grupo fundamentalista ao poder, 20 anos depois de seu regime ser derrubado pela invasão dos Estados Unidos, em outubro de 2001.
Um novo governo ainda não foi formalmente anunciado e ainda há, em tese, negociações com lideranças políticas do Gabinete pró-Ocidente que ficou sem líder com a fuga de Ghani. No entanto, comandantes do Talibã assumiram o controle do palácio presidencial em Cabul e deram entrevista no local, dizendo que estavam garantindo a segurança na cidade para a volta de seus líderes que estão no exílio e fora da capital.
O grupo divulgou um comunicado informando que assumiu os postos policiais que foram abandonados pelas forças do antigo governo. “O Emirado Islâmico ordenou que suas forças entrem nas áreas de Cabul abandonadas pelo inimigo por causa do risco de roubos e furtos”, disse o comunicado assinado por um porta-voz do grupo, Zabiullah Mujahid, usando o nome pelo qual a milícia se identifica. “Os talibãs receberam a ordem de não atacar civis nem entrar em suas casas”, continuou o comunicado. “Nossas forças estão entrando em Cabul com cautela.”
“O ex-presidente do Afeganistão deixou o Afeganistão nessa situação difícil. Deus deveria fazê-lo pagar” disse Abdullah, que comanda o organismo criado para conduzir as negociações de paz com o Talibã que vinham ocorrendo em Doha, no Qatar, e que fracassaram em chegar a um acordo.
O próprio Ghani depois divulgou um comunicado dizendo que deixou o Afeganistão para “evitar um banho de sangue”. Segundo a emissora al-Jazeera, ele teria ido para Tashkent, no Uzbequistão, com sua mulher, seu chefe de Gabinete e seu conselheiro de Segurança Nacional.
Sem resistência
O avanço do Talibã até Cabul, no entanto, praticamente não enfrentou resistência militar. Seus combatentes chegaram às portas da capital neste domingo cedo, após uma ofensiva relâmpago de menos de duas semanas em que tomaram o controle de todas as principais cidades do Afeganistão, às vésperas da conclusão da retirada das forças dos EUA e de seus aliados da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), prevista para 31 de agosto.
O próprio Talibã demonstrou ter sido surpreendido com a fuga do presidente e a facilidade com que entrou na capital, onde supostamente as forças do governo estariam se preparando para combates.
O porta-voz do braço político do grupo, Mohammed Naeem, disse à al-Jazeera que o Talibã não contava com a fuga e que o novo regime será determinado em breve. Segundo Naeem, o Talibã está preparado para lidar com as preocupações internacionais “por meio do diálogo”, mas não permitirá interferência no país.
