O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central se reuniu nesta quarta-feira (20) e decidiu manter, pela oitava vez seguida, os juros básicos da economia em 14,25% ao ano – o maior patamar em dez anos. A decisão confirmou a expectativa dos analistas do mercado financeiro.
A reunião foi a primeira comandada pelo novo presidente do BC, Ilan Goldfajn, que informou, no fim de junho, que buscará atingir a meta central de inflação de 4,5% em 2017 – o que pressupõe um atraso maior no processo de queda dos juros.
A inflação corrente do país ainda está elevada. Em 12 meses até junho, o índice somou 8,84%, distante do objetivo central de 4,5% para o próximo ano. Economistas das instituições financeiras estimam que o processo de redução dos juros básicos da economia começará mais para o fim deste ano.
No mês passado, Goldfajn explicou que o BC e o governo estão adotando medidas para permitir a queda na taxa de juros no Brasil, mas acrescentou que esse processo tem de ser levado adiante somente quando as condições permitirem que ele ocorra de “forma responsável”, ou seja, de modo que a inflação atinja a meta de 4,5% em 2017.
Comunicado longo
Após a reunião do Copom, o BC divulgou um longo comunicado, muito maior do que a frase divulgada anteriormente. A instituição informou que a projeção de inflação para 2017, com juros e câmbio estáveis, indica convergência para o patamar de 4,5%, mas, no cenário de mercado, que pressupõe queda dos juros nos próximos meses, a expectativa para o IPCA ainda está por volta de 5,3% para o ano que vem.
O Comitê informou ainda que identifica os seguintes riscos domésticos para a inflação: ela segue acima do esperado no curto prazo, em boa medida decorrente de preços de alimentos, pode se mostrar persistente; as incertezas quanto à aprovação e implementação dos ajustes necessários na economia permanecem; e um período prolongado com inflação alta e com expectativas acima da meta pode reforçar mecanismos inerciais e retardar o processo de desinflação.
“Por outro lado, os ajustes na economia podem ser implementados de forma mais célere, permitindo ganhos de confiança e reduzindo as expectativas de inflação; e o nível de ociosidade na economia pode produzir desinflação mais rápida do que a refletida nas projeções do Copom”, acrescentou o BC.
Impacto dos juros na inflação
Para frear a inflação, o principal mecanismo usado pelo BC é a alta da taxa de juros (Selic). Ao subir os juros ou mantê-los elevados, o BC encarece o crédito. O objetivo é reduzir o consumo no país para conter a inflação que tem mostrado resistência.
Entretanto, os juros altos prejudicam a atividade econômica e, consequentemente, inibem a geração de empregos. Quando o Banco Central julga que a inflação está compatível com as metas preestabelecidas, pode baixar os juros.
Para 2016 e 2017, essa a central de inflação é de 4,5% no ano. Neste ano, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) – a inflação oficial do país, não pode, pelo sistema de metas, ficar acima de 6,5% e, em 2017, de 6%. Se ficar, o BC terá descumprido as metas oficiais.
Cenário econômico
A reunião do Copom aconteceu em um ambiente de forte recessão na economia brasileira. Para este ano, a mais recente previsão do mercado financeiro é de um tombo de 3,3% no Produto Interno Bruto (PIB), após um recuo de 3,8% ano passado – o maior em 25 anos.
Entretanto, ainda influenciada pelo alto patamar do ano passado, a inflação brasileira segue elevada. Apesar da queda nos últimos meses, a inflação somou, em 12 meses até junho, o índice de 8,84%, ainda muito distante do objetivo central de 4,5% para o próximo ano (objetivo declarado do novo BC).
Embora a queda recente do dólar contribua para impedir uma escalada maior dos preços, a forte deterioração das contas públicas agem em sentido contrário. Para este ano, a previsão é de um déficit de R$ 170,5 bilhões para as contas do governo e, para 2017, a previsão é de rombo de R$ 139 bilhões. Déficits maiores implicam em mais gastos públicos – que pressionam a inflação.
Pressão por corte nos juros X autonomia do BC
A primeira reunião da nova diretoria da autoridade monetária, chefiada por Ilan Goldfajn, foi precedida por ruídos dentro do governo. O presidente em exercício, Michel Temer, declarou na semana passada, em entrevista à GloboNews, que tem pedido à equipe econômica “sobre a possibilidade de reduzir os juros”.
Nesta quarta-feira, o ministro chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, afirmou que o presidente em exercício via com “bons olhos” uma eventual redução da taxa de juros por parte do Banco Central. Depois de tudo isso, Michel Temer publicou, em seu página pessoal no microblog Twitter, uma declaração na qual firma que a autoridade monetária tem “plena autonomia” para definir o percentual.
Para o economista Alexandre Schwartsman, ex-diretor do BC, é “lamentável” que o presidente da República tenha se juntado ao coro do setor produtivo e dos trabalhadores para pedir redução dos juros. “Deixa o BC fazer o que precisa. Eu não sei onde é que o presidente obteve seu doutorado em economia monetária, mas não foi onde eu estudei”, declarou ele.
Durante sabatina no Senado Federal, Goldfajn declarou ser favorável à autonomia do BC e à fixação, no futuro, de mandatos para presidente e diretoria. Sobre mandato para presidente e diretores do banco, Goldfajn disse que é preciso ainda que o país tenha “maturidade” para que isso seja feito no futuro. Na vigência de um mandato, diretores e presidente teriam período fixo de permanência no cargo.
O governo informou que vai propor ao Congresso uma “autonomia técnica” para o Banco Central. O projeto não deve prever mandatos fixos para presidente e diretores da instituição, mas deve garantir foro privilegiado no Supremo Tribunal Federal (STF) para toda a diretoria do BC. (AG)
