Após uma série de derrotas e desgastes na condução das negociações para uma delação premiada do banqueiro Daniel Vorcaro, o advogado José Luís de Oliveira Lima, conhecido como Juca, comunicou sua saída do caso. Por enquanto, a defesa continua sob responsabilidade do advogado Sérgio Leonardo, que tem antiga relação de confiança com Vorcaro.
O dono do Banco Master protagonizou diversos episódios de irritação nas duas últimas semanas presenciados por pessoas que o visitaram na prisão e que acabaram resultando na decisão de trocar o advogado. A saída de Juca foi anunciada como de “comum acordo” entre os dois. Mas, nos bastidores, interlocutores do banqueiro relataram um crescente desgaste entre eles no caso.
Essa insatisfação foi provocada mais recentemente pelas derrotas impostas ao banqueiro com o avanço das investigações e a derrocada da sua delação. Após ter apresentado uma proposta de colaboração premiada no início de maio, Vorcaro acreditava que conseguiria obter rápidos benefícios. O que ocorreu foi o inverso: ele acabou sendo alvo de novas operações da Polícia Federal.
Prisão do pai
Um dos golpes mais fortes foi quando ficou sabendo da prisão do seu pai, Henrique Vorcaro, cumprida pela PF em 14 de maio na sexta fase da Operação Compliance Zero. O banqueiro se queixou da operação e chegou a dizer a interlocutores que se sentiu vítima de uma “quebra de confiança” por parte dos investigadores. Ele acreditava que, com a negociação do acordo, seria poupado pela PF, mas acabou vendo o cerco se fechar à sua família.
A prisão do pai foi interpretada pelos interlocutores da família de Vorcaro como um recado de que o acordo de delação entregue era insuficiente. Naquele momento, o banqueiro começou a ter dúvidas sobre a estratégia traçada por seu advogado. Na avaliação de investigadores, a proposta de delação confeccionada por Vorcaro era seletiva e escondia informações que a própria investigação já havia obtido por meio do celular do banqueiro e de outras diligências complementares.
Pessoas próximas ao banqueiro admitem que a primeira proposta era uma “delação light” e dizem que o próprio Vorcaro teve receio de se aprofundar demais nos relatos de crimes sem ter uma garantia de que se livraria logo da prisão.
Na última segunda-feira, a situação de Vorcaro piorou depois que a PF decidiu transferi-lo da cela especial em que estava para uma cela comum, dentro da própria carceragem da Superintendência da PF em Brasília.
No dia seguinte, ele recebeu na prisão a visita de sua irmã, Natália, e se queixou das condições da cela e também da condução de sua defesa. Vorcaro demonstrou preocupação com a informação de que o seu advogado havia entrado em um embate com o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça. Na sua avaliação, isso vinha piorando sua situação, e as decisões desfavoráveis do ministro estavam sendo interpretadas como um recado para mudar sua defesa.
Delação rejeitada
O golpe final veio na noite de quarta-feira, quando a PF avisou que havia rejeitado a proposta de delação premiada do banqueiro. A Procuradoria-Geral da República (PGR) também rejeitou a delação apresentada, mas informou que daria prosseguimento às negociações e deu prazo para que a defesa complementasse a proposta de delação.
A sinalização positiva da PGR, entretanto, não foi suficiente para que Juca permanecesse à frente do caso. A avaliação de interlocutores do banqueiro é de que a delação só terá condições de avançar caso ele realmente decida colaborar e contar mais detalhes sobre os crimes cometidos. A mudança na defesa, então, foi vista como um sinal de que Vorcaro buscará uma colaboração mais efetiva.
Com a saída de Juca, o caso continuará sob os cuidados do advogado Sérgio Leonardo, que já vinha acompanhando Vorcaro desde o início das investigações e tem uma relação antiga de confiança com ele. Ainda está sob avaliação se será contratado um novo advogado para integrar a equipe e liderar o processo de delação.
A saída de Juca já gerou uma sinalização positiva de Mendonça. Ontem, o ministro do Supremo autorizou a transferência de cela de Vorcaro. O dono do Banco Master retornará a uma cela especial na Superintendência da PF em Brasília. (Com informações de O Estado de S. Paulo)
