A polarização envenenou o ambiente político e aparentemente dividiu o país em duas posições radicalmente opostas, as do bolsonarismo e as do petismo. Duas pesquisas recém-divulgadas, no entanto, mostram a artificialidade desse reducionismo.
Os levantamentos A Cara da Democracia (O Globo, 20 de julho) e Datafolha com evangélicos (Folha, 21 de julho) revelam que as bases do PT não são tão “progressistas” quanto o discurso de seus líderes aparenta ser. Da mesma forma, há mais nuances e flexibilidade de posições nas bases bolsonaristas do que o radicalismo do clã Bolsonaro deixa entrever.
As redes sociais exprimem o pensamento da parcela mais engajada e intolerante ao diálogo de ambos os lados. As pesquisas indicam que há vida fora dessa atmosfera viciada.
Descriminalização das drogas e armas de fogo são exemplos típicos que colocam o PT e a oposição bolsonarista em campos opostos. A Cara da Democracia mostra que não é bem assim. São contra a postura mais branda em relação às drogas 68% dos partidários de Lula, ou seja, dois em cada três pesquisados desse espectro político.
No caso dos bolsonaristas, 82% são contrários. Mais surpreendente, a maioria dos eleitores do PT (57%) não quer que seja proibida a venda de armas, fatia só um pouco menor do que os 63% dos eleitores de Bolsonaro. Os evangélicos, tidos como alinhados indistintamente aos bolsonaristas, são contra a posse de armas de fogo – 66% disseram isso ao Datafolha no final de junho.
A redução da maioridade penal é um anátema para liberais e progressistas brasileiros em geral. Projetos nesse sentido nunca prosperam no Legislativo. Mas dois terços dos eleitores do PT (67%) a defendem, assim como 79% dos de Bolsonaro.
E, embora estes últimos apoiem a instituição da pena de morte no país (55%), uma parcela expressiva dos que votam no PT também concorda com isso – nada menos de 42%.
Metade dos que votam no PT são contrários a que os detentos possam sair em datas especiais para visitar familiares (a “saidinha”). Projeto nesse sentido foi aprovado pelo Congresso, e o presidente Lula pensou em vetar o trecho. Mas 50% de seus partidários apoiam a proibição, bem como 56% dos eleitores de Bolsonaro.
Outras questões parecem ter criado uma muralha separando os dois campos políticos. A realidade é diferente das aparências. Mais de dois terços (69%) dos eleitores do PT e 82% dos de Bolsonaro fazem coro contrário à legalização do aborto.
Nenhum dos dois lados, entretanto, estende sua convicção a ponto de defender a prisão de mulheres que interrompam a gravidez, como consta de projeto que teve sua urgência aprovada para votação na Câmara dos Deputados e depois, diante da imediata reação de repúdio geral a seu conteúdo, deixou o recinto – espera-se que para sempre.
Ainda assim, 36% dos petistas e 47% dos bolsonaristas veem com bons olhos a detenção de mulheres que fazem aborto. Além disso, 43% dos eleitores do PT não apoiam o casamento civil de pessoas do mesmo sexo, ao lado de 65% dos eleitores de Bolsonaro.
A Cara da Democracia mostra, assim, que o lado conservador do maior partido de esquerda brasileiro é amplo e maior do que se supunha, o que torna bastante relativa a eficácia da estratégia de demonizar Bolsonaro por várias de suas ideias.
De forma ampla, a pesquisa mostra que as convicções inabaláveis que se defrontam nas redes sociais não são tão sólidas assim. E desmancham-se um pouco mais se for considerado o papel dos evangélicos na arena política.
O Datafolha ouviu 613 deles no fim de junho, a maioria (69%) pentecostais e neopentecostais. A ação partidária de líderes de algumas dessas igrejas cobriu os evangélicos com o manto indistinto do reacionarismo bolsonarista.
A pesquisa deu voz aos evangélicos e mostrou que não é bem assim. Na maioria (56%), eles não gostam que suas igrejas apoiem candidatos e 70% deles acham que os pastores não deveriam dizer em quem os fiéis devem votar. Mais, 81% afirmaram nunca ter votado em candidatos sugeridos por pastores de suas igrejas. Além de serem contra a posse de armas, um a bandeira bolsonarista, se colocam em peso (77%) contra o homeschooling (educação domiciliar pelos pais), outra patacoada pregada pela extrema-direita. São contra o aborto, contra que ele deixe de ser crime, mas contra a prisão de quem o faz. São esmagadoramente (86%) a favor de acolher gays e pessoas trans nas igrejas. Além disso, 55% acham que política e religião não devem andar juntas e só 30% citaram nome de políticos que mais representam os evangélicos. Destes, 10% citaram Bolsonaro e 1% Lula; 43% disseram não saber.
As pesquisas mostram que há um vasto contingente de eleitores que se afastam dos extremos, enquanto os políticos têm voltado sua atenção às redes sociais, onde se digladiam as franjas mais radicais.
Seria importante, em especial em épocas de eleição, que os candidatos discutissem a sério propostas que atinjam a maioria da população, como educação, segurança e saúde, e deixassem de lado guerras ideológicas estéreis que, como sugerem as pesquisas, têm menos guerreiros do que aparentam.
A coluna é do portal de notícias Valor Econômico
