O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) recebeu nesta terça-feira (10) um comboio de blindados e outros veículos militares na rampa do Palácio do Planalto. A tentativa de demonstração de força dos militares, combinada com o presidente da República, aconteceu no dia que a Câmara votou e rejeitou a proposta de adoção do voto impresso no País. A iniciativa do governo provocou reação de parlamentares e foi vista como um ato de intimidação e pressão ao Congresso.
Pela Esplanada, passaram 46 veículos militares, entre blindados, tanques, jipes e caminhões. Todos da Marinha. O trânsito em frente ao palácio não foi interrompido. O desfile durou cerca de dez minutos.
Nas últimas semanas, Bolsonaro promove uma tensão institucional, em especial com o Judiciário. O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Luís Roberto Barroso, tem sido alvo quase diário do presidente.
Bolsonaro e seus ministros acompanharam o desfile do alto da rampa do Palácio do Planalto. O presidente, o ministro da Defesa, Braga Netto, e os três comandantes militares estavam mais à frente, um ao lado do outro. Pelo menos dez ministros civis compareceram no ato, entre os quais Ciro Nogueira (Casa Civil), Milton Ribeiro (Educação), Anderson Torres (Justiça), Gilson Machado (Turismo) e Onyx Lorenzoni (Trabalho).
O vice-presidente, general Mourão, não esteve na cerimônia. Segundo sua assessoria, Mourão não foi convidado. Alguns deputados governistas compareceram, entre eles o líder do governo, deputado federal Ricardo Barros (PP-PR), que será ouvido pela CPI da Covid. Barros teria sido citado pelo próprio Bolsonaro numa conversa com o deputado Luis Miranda (DEM-DF) que denunciara haver suspeitas de irregularidades no processo de negociação para compra da vacina Covaxin no Ministério da Saúde.
O pretexto da presença desses blindados na Esplanada em uma data fora de qualquer celebração militar é que semana que vem ocorre a “Operação Formosa”, um treinamento militar que ocorre todo ano nessa cidade de Goiás. Bolsonaro recebeu o convite no alto da rampa para acompanhar esse treino, que irá contar com 2,5 mil militares das três forças.
Após a repercussão negativa desse ato militar, Bolsonaro fez convite público aos presidentes dos tribunais superiores, que não compareceram. A oposição tentou barrar o desfile dos blindados, mas o ministro Dias Toffoli, do STF, negou pedido desses partidos para que o ato fosse suspenso.
De fora do governo, estiveram presentes o ministro Ives Gandra da Silva Martins Filho, do TST. Sua irmã, Angela Gandra, é secretaria da Família do ministério de Damares Alves. O ministro Jorge Oliveira, indicado por Bolsonaro para o TCU, também compareceu. Oliveira é amigo de décadas do presidente e trabalhou no seu gabinete na Câmara dos Deputados e depois virou Secretário-Geral da Presidência, no atual governo.
Um pequeno grupo de apoiadores acompanhava o desfile em frente ao Planalto. Vários deles com camisas e bandeiras do Brasil e fotos e faixas de apoio ao presidente. No final, um grupo começou a gritar “142”, que é o número do artigo da Constituição que trata das Forças Armadas e define suas funções.
Para esses apoiadores, o artigo daria aos militares o poder de atuar como moderadores do sistema político, podendo até promover uma intervenção. Não há, no entanto, qualquer dispositivo no texto constitucional que atribua essa missão aos militares.
