Ícone do site Jornal O Sul

O primeiro-ministro britânico muda seu sotaque e se converte no homem do povo para liderar a saída do Reino Unido da União Europeia

Primeiro-ministro Boris Johnson. (Foto: Reprodução)

Mais uma vez, o camaleônico Alexander Boris de Pfeffel Johnson, 55 anos, metamorfoseou-se para atingir seus objetivos. Egresso da Eton, escola frequentada pela realeza, e da Universidade de Oxford, nada mais posh, na gíria inglesa para “chique”, converteu-se em homem do povo. Foi conquistar cadeiras parlamentares nos redutos trabalhistas, da classe operária, onde os conservadores, como ele, jamais tiveram vez. Tornou-se mais um deles, enquanto o líder da ala esquerda trabalhista, Jeremy Corbyn, era visto com um político da capital, distante, urbano e vegetariano.

O premier mudou a maneira de falar, distanciando-se do sotaque específico, reconhecido à distância, usado pelos filhos de Oxbridge (mistura das universidades de Oxford e Cambridge), passou a usar gravatas tortas, com o nó desengonçado como o cabelo, sua marca registrada.

A linguagem corporal e o vocabulário usados por Boris foram na maior parte do tempo masculinos, segundo a especialista em política britânica da Universidade de Westminster Pippa Catterall. Tudo para que os milhões de eleitores-alvo, escolhidos pelo estrategista político Dominic Cummings desde a campanha pelo Brexit no referendo de 2016, tivessem com quem se identificar.

Boris Johnson despenteia a cabeleira loura antes de aparecer diante câmeras. Inventa neologismos. As hesitações nos discursos refletem uma fragilidade calculada e uma desculpa para repetir as mensagens simples que quer que sejam registradas. A imagem de bufão desajeitado também o aproxima do cidadão comum. Na campanha para as eleições da última quinta-feira, nas quais garantiu a maioria do Parlamento para os conservadores, repetiu o mantra que adotou para si e para o partido: “Get Brexit done” (liquidar a fatura do Brexit). Foi assim que chegou aos britânicos do norte da Inglaterra, antes um bastião trabalhista.

Mais povão
Bojo, como é conhecido, não foi o único a se transformar. Mudou também o Partido Conservador, agora uma legenda mais povão, menos burguesa e mais à direita. Boris virou sinônimo de Brexit. Na última segunda-feira, ele apareceu na televisão conduzindo um trator que derrubava um muro onde estava escrito “impasse”. Nada mais visual para quem é favorável ao divórcio da União Europeia (UE). Sentado atrás dele: Cummings.

“O johnsonismo deixou de ser uma nota de pé de página e se tornou um capítulo inteiro na história dos livros, e, provavelmente, permitirá que Johnson surja como o primeiro líder conservador que poderá dizer que o partido triunfou no que diz respeito à questão europeia, algo que Margaret Thatcher, John Major, David Cameron e Theresa May não podem dizer, afirmou Matthew Goodwin, especialista do centro de estudos Chatham House.

Para o professor, o premier conseguiu a proeza de realinhar o partido, levando-o um pouco mais à esquerda na economia e à direita quando se trata de cultura e identidade.

O desafio é que a legenda agora representa um eleitorado muito diferente daquele com o qual o então líder conservador Davod Cameron lidou quando obteve maioria no Parlamento em 2015, antes de realizar o referendo que levou ao Brexit.

“É mais velho, menos diverso do ponto de vista étnico, mais classe trabalhadora, mais conservador, mais entusiasta do Brexit, mais defensor de uma reforma das leis de imigração e mais determinado a ver o endurecimento das autoridades no combate ao crime”, explicou Goodwin.

Para ele, o sucesso do governo de Johnson dependerá de como pretende lidar com a tensão que ficará no ar: “Será a tensão latente entre os defensores do livre comércio e os protecionistas instintivos, entre os liberais e os conservadores, entre os verdadeiros condados azuis (conservadores) e o Reino Unido dos “colarinhos azuis” (os operários), entre aqueles que querem ficar na UE e entre os que defenderão que os conservadores precisam, além de tentar deitar raízes no território pró-Brexit dos trabalhistas, cultivá-lo em longo prazo, prevê o analista.

Sair da versão mobile