Acho que estou vivendo no “mundo invertido”. Você sabe do que estou falando? Assistiu Stranger Things? Não tem problema, o mostrengo é bem menos assustador do que o que está acontecendo no Brasil. Vai por mim.
Só que eu tenho a nítida sensação de que estamos vivendo dentro de um roteiro mal escrito… daqueles em que o autor tenta fazer plot twist, mas só consegue expor a própria incoerência, sabe? E aí nada mais faz sentido, a gente “rebobina a fita” (admito; sou geração X) e, ainda assim, não entende nada.
Ou melhor, entende. E o que não faz sentido algum nisso tudo é a inércia do espectador: no caso, nós, brasileiros.
Porque veja: o Brasil abraça o surrealismo, onde um investigado em um esquema financeiro de alto impacto tem histórico de relação profissional com o escritório da esposa do ministro, o homem mais poderoso do momento, o cara que concentra as decisões mais sensíveis do país. Sim, ele mesmo, o careca.
Não estou dizendo que houve interferência. Estou dizendo que a aparência já seria suficiente, em qualquer democracia madura, para acender sirenes éticas ensurdecedoras. Afinal, o Banco Master, do empresário Daniel Vorcaro, já contratou o escritório de advocacia da esposa de Alexandre de Moraes. Está nos portais. Está nos documentos. Está na imprensa. Pode conferir.
Dias depois, o mesmo Vorcaro (dono do banco fechado pelas autoridades em meio a um escândalo financeiro pesado) é preso pela Polícia Federal. Até aí, justiça funcionando.
Mas daí… segura essa: o cara foi solto. E todo mundo sabia que isso ia acontecer, o que me dá refletir sobre o que é pior…a impunidade, ou a certeza dela?
E dê-lhe ter esperança com a justiça brasileira. E, olha, eu acredito na Justiça sabe? Sou advogada. Uma arte de mim se agarra a muitos, muitos servidores e juíz com propósito e, principalmente, índole.
Mas no meio do caminho…ah, no meio do caminho tem o STF!..
Estamos vivendo dias tão loucos que até Malu Gaspar, jornalista identificada com a esquerda, escreveu uma coluna dizendo: “Depois de superar o golpismo, o Brasil precisa enfrentar a falta de limites do Supremo.” Palavras dela. Dela mesmo, ninguém inventou. Pois bem!
Para derrotar seus adversários políticos, podia tudo — atropelar a Constituição, reinventar tipos penais, reinterpretar leis, avançar sobre competências. Mas agora que a poeira baixou, agora que o “inimigo comum” foi vencido, agora sim precisamos discutir limites? Agora sim a Corte precisa entrar nos eixos? Ah, convenhamos: a esquerda não faz ideia do monstro institucional que ajudou a alimentar. E o monstro, historicamente, nunca devolve o poder que recebe. E é nesse cenário que o contraste se torna mais gritante.
Enquanto um banqueiro de altíssimo alcance é tratado com a liturgia da legalidade, o Brasil mantém como símbolo de “rigor democrático” uma mulher que… escreveu com batom numa estátua.
Sim. Não nos esqueçamos delas A Débora Rodrigues, a famosa “Débora do Batom”. Condenada a 14 anos de prisão por crimes que não comandou, não executou com violência e não organizou.
Catorze anos. Cara, nem o meu filho mais velho tem essa idade ainda. Uma vida inteira. INTEIRA!
E no meio desse país que cobra exemplaridade seletiva, temos também a história que ninguém quer discutir: o Clezão. O homem que morreu na prisão. Sem ter matado, sem ter roubado milhões, sem comandar quadrilha. Preso num “pacote” de réus políticos enquanto criminosos de alta periculosidade seguem negociando acordos, delações, benefícios e celas especiais. Clezão não tinha padrinhos, não tinha sobrenome, não tinha escritório de luxo para defendê-lo. E no Brasil de hoje, isso é praticamente uma sentença.
Mas a mulher do batom? Essa virou troféu punitivo.
O Daniel? Ninguém mais lembra: pegou um jato com amigos e fugiu pra Dubai. Mas daqui a pouco está de volta, fechando contratos com o governo, pode apostar.
A pergunta, portanto, não é mais se o Brasil é incoerente. Isso já está evidente. A pergunta é: Quem decide quem é “perigo à democracia” e quem merece um tratamento… mais delicado?
Porque uma coisa eu digo com tranquilidade: no Brasil de hoje, a lei continua valendo para todos. Mas a forma como ela é usada depende de quem você é — e, sobretudo, de quem você conhece.
E no meio desse caos moral, vale repetir a frase que deveria estar tatuada na entrada de cada tribunal: nem tudo que é legal é moral.
E nem tudo que é moral sobrevive ao Brasil.
Ali Klemt
@ali.klemt
