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Brasil envelhece, mas gasto com crianças bate recorde e desafia a lógica demográfica

 

Com 10 milhões de idosos a mais que crianças, país registra maior desembolso da história no Dia das Crianças; avós e tios ganham protagonismo, enquanto varejo se adapta à nova estrutura familiar brasileira

O Brasil vive uma transformação demográfica sem precedentes. Pela primeira vez, a população idosa supera amplamente a infantil: são 36,6 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, contra 26,4 milhões de crianças de até nove anos. A diferença de 10 milhões marca uma mudança estrutural na sociedade brasileira e aponta para um futuro ainda mais envelhecido. As projeções indicam que, em 2040, haverá cerca de 2,5 idosos para cada criança.

Em tese, a redução do público infantil deveria representar uma desaceleração do mercado voltado às crianças. Os números mostram justamente o contrário.

Levantamento do IBEVAR em parceria com a FIA Business School revela que o gasto real por criança no Dia das Crianças atingiu R$ 369 em 2026, já descontada a inflação. Trata-se do maior valor desde o início da série histórica, em 2005, superando inclusive o recorde anterior de R$ 354 registrado em 2014.

O dado expõe uma das mudanças mais significativas do consumo brasileiro: menos crianças não significam necessariamente menos negócios. Na prática, cada criança passou a concentrar uma parcela maior da renda familiar.

Enquanto a população infantil encolheu ao longo das últimas décadas, o número de adultos dispostos a presentear permaneceu elevado. Hoje, além dos pais, avós, tios, padrinhos e parentes próximos dividem protagonismo nas compras, ampliando o potencial de consumo por criança.

“O Dia das Crianças cresce porque cada criança recebe mais, e boa parte desse presente vem de tios e avós. Como o desejo muda em poucas semanas, a aposta em febres pede estoque curto e reposição rápida”, afirma Claudio Felisoni, presidente do IBEVAR e professor da FIA Business School.

Os dados ajudam a explicar o fenômeno. Metade dos presentes é destinada aos filhos. Os sobrinhos representam 34% dos contemplados e os netos outros 16%. O movimento sugere uma reconfiguração das relações de consumo dentro das famílias brasileiras, cada vez menores e mais envelhecidas.

A força da data também aparece no ambiente digital. As buscas por “presente de Dia das Crianças” mais que dobraram em relação a 2019, desempenho superior ao observado em outras datas relevantes do varejo. No mesmo período, o interesse por presentes de Natal cresceu 22%, enquanto as buscas ligadas ao Dia dos Namorados recuaram 45%.

Para o comércio, o comportamento reforça a consolidação da data como um dos momentos mais importantes do calendário de vendas. A expectativa é que a semana do Dia das Crianças movimente R$ 4,26 bilhões nos shopping centers e R$ 10,16 bilhões no comércio eletrônico. A indústria de brinquedos trabalha com projeções de crescimento entre 5% e 9%.

Mas o avanço das vendas ocorre em um ambiente de mudanças rápidas e elevado grau de imprevisibilidade.

Se antes os sucessos infantis permaneciam por meses no topo das preferências, hoje as modas surgem e desaparecem em questão de semanas. Produtos que dominaram as redes sociais recentemente perderam relevância quase instantaneamente. Labubu e Bobbie Goods, por exemplo, acumulam queda de 96% no interesse em relação ao pico registrado em julho de 2025. O álbum da Copa perdeu 99% das buscas em apenas cinco meses. Já o bebê reborn viu a procura cair pela metade em apenas uma semana.

Em sentido oposto, o brinquedo sensorial conhecido como squishy transformou-se na principal febre do momento e alcançou recorde histórico de buscas.

Entre janeiro e setembro, o patinete liderou o avanço de interesse entre os produtos infantis, com crescimento de 43%. As plataformas de jogos também ganharam espaço. Steam avançou 28%, PlayStation 25% e Xbox 12%. Categorias mais tradicionais, como fantasias, bicicletas infantis e quebra-cabeças, perderam relevância.

O levantamento mostra ainda que o mercado infantil resiste mesmo em um contexto econômico desafiador. Embora a taxa de desemprego esteja em 5,3%, a menor da série recente, a inadimplência no crédito livre atingiu 8,01% em agosto, recorde histórico. Além disso, quase metade da renda das famílias brasileiras já está comprometida com dívidas.

Ainda assim, 37% dos consumidores que pretendem comprar presentes afirmam ter contas em atraso. Mais emblemático: 12% admitem deixar de pagar alguma obrigação financeira para garantir que a criança receba um presente na data comemorativa.

O resultado revela que o Dia das Crianças ocupa uma posição singular no orçamento das famílias. Em um país que envelhece rapidamente, a infância torna-se um bem cada vez mais raro e, por isso mesmo, mais valorizado economicamente.

A principal conclusão do estudo é que o futuro do mercado infantil dependerá menos da quantidade de crianças e mais da intensidade dos investimentos destinados a cada uma delas. Para o varejo, a nova equação é clara: haverá menos crianças no Brasil, mas cada uma valerá mais para a economia.(por Gisele Flores – gisele@pampa.com.br)

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