O Brasil teve um saldo de geração de empregos formais de quase 4,6 milhões para beneficiários do Bolsa Família no período de janeiro de 2023 a julho de 2026, no terceiro governo Lula (PT), aponta estudo de pesquisadores da FGV (Fundação Getulio Vargas).
Esse indicador é a diferença entre as contratações (15,3 milhões) e as demissões (10,8 milhões) registradas entre os integrantes do programa de transferência de renda. Como as admissões superaram os cortes, o resultado ficou positivo.
O número de quase 4,6 milhões equivale a 85,2% do saldo total de vagas geradas com carteira assinada pelo país em igual intervalo (5,4 milhões).
Segundo os responsáveis pela publicação, os dados sinalizam uma inclusão produtiva do grupo e refutam as críticas frequentes de que o Bolsa Família afastaria os beneficiários do mercado de trabalho.
Um brasileiro pode continuar recebendo o auxílio enquanto desempenha atividades profissionais. Para isso, é necessário que a renda familiar per capita (por pessoa) siga dentro do teto de R$ 218 por mês.
“Uma crítica de que as pessoas do Bolsa Família não querem trabalhar não é uma crítica válida quando você olha para os números”, afirma o pesquisador da FGV Valdemar Pinho Neto, autor do estudo em parceria com Luiz Gustavo Barbosa.
Os beneficiários do programa responderam por 16,7% do total de contratações no país no período analisado, de 91,8 milhões, e representaram 12,5% do volume geral de demissões, de 86,4 milhões.
O estudo não detalha se os trabalhadores inscritos no Bolsa Família seguiram recebendo o auxílio depois da admissão no mercado de trabalho. A publicação indica apenas se o profissional integrava ou não a iniciativa social no momento da contratação ou do corte.
O Bolsa Família voltou ao centro de debates em setembro, quando o governo Lula anunciou um reajuste no benefício 17 dias antes do primeiro turno.
O argumento da gestão petista é que o reajuste busca repor as perdas causadas pela inflação desde a reformulação do Bolsa Família, em março de 2023. A oposição, por sua vez, criticou a medida, classificando o anúncio como eleitoreiro.
O estudo da FGV também avalia a geração de empregos entre as pessoas dentro e fora do CadÚnico. Esse é o cadastro para o recebimento de auxílios do governo federal, incluindo o Bolsa Família.
Entre os inscritos no CadÚnico, o saldo de empregos formais ficou positivo em 5,8 milhões no intervalo de janeiro de 2023 a julho de 2026 – 33,3 milhões de contratações e 27,5 milhões de demissões. A diferença supera o saldo total do mercado formal no mesmo período (5,4 milhões).
“Em conjunto, os resultados indicam que a dinâmica recente do mercado de trabalho formal brasileiro teve papel relevante na inclusão produtiva de famílias em situação de vulnerabilidade socioeconômica”, diz o estudo.
O cenário tem alterações quando o grupo analisado é o de trabalhadores não inscritos no CadÚnico. Nesse caso, o saldo de empregos formais ficou negativo: -460,6 mil postos. Ou seja, as contratações (58,5 milhões) ficaram abaixo das demissões (58,9 milhões).
O saldo negativo, porém, não representa uma crise de oportunidades para pessoas fora do CadÚnico, de acordo com os pesquisadores. A possível explicação é que o aquecimento do mercado permitiu a uma parcela dos trabalhadores pedir demissão para trocar de vaga.
A fonte dos dados de emprego usada no estudo da FGV é o Caged, o cadastro de postos com carteira divulgado pelo governo federal. O levantamento cruza essas estatísticas com as informações do CadÚnico e do Bolsa Família.
Jovens, pardos e mulheres chamam atenção
Os pesquisadores também traçaram um perfil sociodemográfico da mão de obra. Jovens de 18 a 24 anos responderam por 40,5% do saldo de empregos gerados entre os beneficiários do Bolsa Família – 1,9 milhão dos 4,6 milhões. Foi a maior participação entre os grupos de idade investigados.
No recorte de cor ou raça, há predomínio de pardos (2,9 milhões, ou 62,7%). Quando a variável analisada é o sexo, o destaque fica com as mulheres (2,5 milhões). Elas responderam por 55,4% do saldo de empregos dos integrantes do Bolsa Família. Por nível de ensino, o principal grupo é aquele com médio completo (78,2%).
Outro ponto analisado é o contraste regional. O estudo indica que nove estados (Maranhão, Alagoas, Ceará, Bahia, Pará, Rio Grande do Norte, Acre, Pernambuco e Sergipe) registraram saldos negativos de vagas entre não beneficiários do Bolsa Família.
Nesses locais, os resultados positivos dos integrantes do programa mais do que compensaram a retração do restante do mercado.
