Comer em casa no Brasil deve ser mais caro em 2026 do que foi em 2025. O fenômeno El Niño – que gera aquecimento acima de 0,5 grau nas águas do Pacífico – deve pesar mais sobre a inflação dos alimentos, após um ano de clima atipicamente favorável. Soma-se a isso a esperada de normalização de preços em itens importantes para a cesta do brasileiro como arroz, feijão, laticínios e carnes.
Bruno Imaizumi, economista da 4intelligence, estima impacto de 0,76 ponto percentual (p.p.) do El Niño na inflação de alimentos em 2026, após apenas 0,14 p.p. em 2025. “El Niño costuma causar efeitos heterogêneos no Brasil, com secas no Norte e no Nordeste e maiores temperaturas no Sudeste e no Sul, o que acaba elevando o volume de chuvas, principalmente na região Sul”, diz Imaizumi.
Isso pode afetar, por exemplo, a safra de grãos, com atrasos ou quebras, e também as produções que dela dependem, como carnes, leites e derivados. Pode impactar também a produção de alimentos “in natura” como frutas e legumes.
A reta final de 2025 começou com chuvas positivas e sem refletir padrões anômalos associados a outro fenômeno climático, La Niña, que está em atuação desde setembro do ano passado, mas deve ser de intensidade moderada e prosseguir até o primeiro trimestre de 2026, apontam o economista Alexandre Maluf e o analista Samuel Isaak, da XP, em relatório.
A partir de fevereiro, Imaizumi diz que o cenário para o clima deve ser de neutralidade e que institutos de análise têm elevado a chance de El Niño começar a partir do segundo semestre de 2026. “É possível que parte desses efeitos seja jogada para 2027”, afirma.
Ainda assim, a inflação da alimentação no domicílio – que fechou 2025 em 1,4%, após subir 8,2% em 2024 – deve saltar para 4,6% em 2026, de acordo com as projeções da 4intelligence. A XP prevê uma inflação ao redor de 4,5% para a alimentação em casa em 2026, uma aceleração em relação a 2025, mas ainda “relativamente comportada em termos históricos”, afirmam Maluf e Isaak.
As condições climáticas amenas de 2025, dizem, devem continuar beneficiando a produção de itens “in natura” ao longo do primeiro semestre de 2026. Mas, considerando uma retomada moderada do El Niño a partir da segunda metade do ano, os economistas preveem pressões altistas sobre esses preços. “Nossas projeções indicam que, no primeiro semestre de 2026, os preços desses subitens devem rodar abaixo da sazonalidade, enquanto no segundo semestre devem ficar acima dela”, afirmam.
Segundo a XP, devem ocorrer altas nos preços de hortaliças e verduras (8,1%, após deflação de 0,8% em 2025), frutas (11,3%, vindo de apenas 0,18% em 2025) e tubérculos e legumes (9,5%, depois de ligeira queda de 0,04% em 2025). A batata-inglesa, por exemplo, que recuou quase 14% em 2025, deve subir 15% em 2026, enquanto tomate, cebola e cenoura devem ter altas em torno de 20%.
Maluf e Isaak reconhecem que, no conjunto, há viés altista para as projeções. Caso ocorra um El Niño forte ao fim de 2026 – o que ainda não é o cenário-base da XP -, eles estimam que pode haver um acréscimo de 1 p.p. na projeção da alimentação no domicílio.
“Quando olhamos os grandes números, não há muito diferença, o IPCA deve sair de 4,3% em 2025 para 4,4% em 2026. Mas parte dessa inflação que permanece perto do intervalo superior da meta (4,5%) está associada à elevação nos preços dos alimentos, que têm peso importante na cesta dos brasileiros”, afirma Imaizumi. “Muda um pouco a composição, e o supermercado vai ficar mais caro.”
Para isso, diz, pesa não só a questão climática, mas também a perspectiva para a safra. “Os níveis permanecerão elevados, mas o IBGE projeta queda de 3% para a safra em 2026, em relação a 2025, que foi recorde”, afirma Imaizumi.
Em 2025, os preços dos alimentos surpreenderam para baixo. No início daquele ano, a mediana da pesquisa Focus, do Banco Central, indicava preços da alimentação no lar subindo 6,3% em 2025. “Condições climáticas favoráveis e ganhos de produtividade se traduziram em colheitas recordes de grãos e produção robusta de alimentos”, dizem Maluf e Isaak.
Em sentido contrário, as estimativas para os preços da alimentação em casa em 2026 têm subido, passando de 4,2% no início de 2025 para 4,7% agora, de acordo com a pesquisa Focus. As informações são do jornal Valor Econômico.
