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Brasileiros deportados pelos Estados Unidos vivem “luto migratório”

Desde o ano passado, quando Donald Trump voltou ao poder, mais de 5.500 brasileiros foram deportados dos EUA. (Foto: FAB/Divulgação)

Desde o ano passado, quando Donald Trump voltou ao poder, mais de 5.500 brasileiros foram deportados dos EUA, segundo levantamento do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania do Brasil (MDHC). Desses, mais de 2 mil viviam no país havia mais de cinco anos – cerca de 600 há mais de 15 – e outros 3.700 deixaram parentes por lá ao serem forçados a voltar.

O tempo vivido fora e a família deixada para trás são, segundo a psicóloga intercultural Andrea Sebben, especialista em psiquismo migratório, dois fatores principais da chamada “ferida do retorno”, que pode resultar no “luto migratório” quando motivado pela expulsão do país onde vivia.

Foi o que sentiu a empresária brasileira Nikole Fernandes, presa por agentes do ICE (Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos EUA) na porta de casa, em Massachusetts, em junho do ano passado. Mãe solo de três filhos, ela vivia nos EUA desde 2019, quando entrou legalmente com visto, mas acabou permanecendo além do prazo permitido, o que a deixou sem status migratório.

“Eu morri em vida e voltei, porque o mundo não para”, contou Nikole ao jornal O Globo, com a voz embargada. “Meu plano A era ficar nos EUA e meu plano B era fazer o A dar certo. Não existia a possibilidade de voltar pro Brasil.”

Fernandes passou quase sete meses presa em diferentes celas – uma delas conhecida como “geladeira”, pelo frio constante, o ambiente monocromático, a luz branca forte e a superlotação – até ser deportada, em novembro do ano passado. Para Sebben, esse processo, principalmente quando forçado, pode se transformar numa espécie de fratura interna.

“Além de perder o lugar onde estava construindo a sua vida, a pessoa pode perder a sensação de controle sobre a própria história”, explica a psicóloga. “Quando alguém é obrigado a voltar, precisa interromper uma vida que ainda estava acontecendo. Pode deixar para trás uma casa, um trabalho, amigos, uma relação, filhos, uma rotina, uma identidade que estava construindo naquele lugar.”

Trata-se, diz ela, de uma ruptura que envolve perdas de rotina, identidade e pertencimento.

“Migrar não é simplesmente sair de um lugar e chegar em outro. Deixa-se para trás muita coisa: pessoas, lugares, cheiros, sons, língua, costumes, referências, uma maneira de viver”, afirma. “E, muitas vezes, se perde até uma parte daquilo que a gente entendia como sendo a nossa própria identidade.”

Dias depois de Nikole ser presa, seu ex-marido viajou aos EUA e pediu que ela assinasse documentos para levar a filha mais nova, de 4 anos, de volta ao Brasil. Ela concordou, para tirar a criança “do olho do furacão”. Ao ser deportada, porém, perdeu a guarda da menina. Hoje, só a vê de 15 em 15 dias.

“Quando voltei, vivi um dia de cada vez. A gente não entende mais como as coisas funcionam. Perdi o controle de tudo, dos meus filhos, das minhas finanças”, acrescenta a empresária, que foi para os EUA “em busca de liberdade e segurança”, fugindo do ex-marido.

A ausência da família agrava o quadro. Das 5.364 pessoas com dados coletados pelo programa Aqui é Brasil, do MDHC, 3.661 (69%) deixaram ao menos um parente nos EUA, e cerca de 21% deles deixaram cinco parentes ou mais. No total, 5.011 deportados (93,4%) voltaram sozinhos. Desses, 3.661 tinham família que ficou no país; os outros 1.350 não tinham parentes por lá.

“Nesses casos, pode existir uma espécie de duplo luto. Primeiro, a perda da vida construída no país e, segundo, o confronto com um país de origem que já não corresponde àquele que existia quando a pessoa partiu”, pontua Sebben. “A pessoa volta fisicamente, mas emocionalmente pode continuar vivendo entre dois lugares.”

A autônoma Pabline Patrícia, de 26 anos, morava em Nova Jersey desde 2017, perto de tias e do irmão. Em maio, foi presa pelo ICE após uma denúncia feita por um casal brasileiro com quem havia se desentendido. Ela entrou no país com visto americano, mas, assim como Nikole, acabou permanecendo além do prazo permitido. Lá, teve dois filhos, um menino de 8 e uma menina de 6, que ficaram no país após a deportação, em agosto.

“Os dias na prisão são um inferno. Um verdadeiro jogo de sobrevivência. Eu acordava e tirava forças não sei de onde. Até a comida tem larva e barata”, relembra Pabline, em entrevista ao jornal O Globo.

Mais de 60% dos deportados, ainda de acordo com o levantamento do MDHC, entraram nos EUA com algum tipo de visto, como Nikole e Pabline, mas o tempo de permanência expirou. E 86,23% trabalhavam em jornadas de oito horas por dia ou mais no país.

“Não construí nada aqui no Brasil, fui muito nova para os EUA. E não me arrependo, queria continuar lá. Voltar, ainda mais contra a minha vontade, foi muito difícil. Aqui não é o meu lugar”, disse a autônoma. “Algumas pessoas, até da família, parecem que são novas na minha vida. Sinto falta dos meus filhos, do meu dia a dia.”

Os casos, segundo Sebben, mostram que o “luto migratório” pode ser ainda mais profundo quando o retorno não é só para um país, mas para uma versão de si mesma que se tornou estranha.

“A pessoa está sendo obrigada a abandonar aquilo que já construiu. Podem surgir angústia profunda, medo, sensação de desamparo, raiva, insegurança e diferentes formas de luto. Quanto maior a ruptura entre a vida que a pessoa construiu e aquilo que lhe é imposto, maior pode ser o esforço psicológico necessário para reorganizar a existência. É como voltar para uma parte de si que já não se reconhece mais.”

A maior comunidade brasileira no exterior fica nos EUA, com cerca de 2,9 milhões de pessoas, das quais 250 mil sem documentação regular, segundo o instituto Pew Research, e 37 mil em processo judicial com possibilidade de deportação. No ano passado, o total de brasileiros no exterior bateu recorde, 5,29 milhões, alta de 110 mil em relação a 2024, segundo o Relatório Consular Anual do Itamaraty.

A ferida do retorno não é exclusiva de quem foi deportado. Brasileiros que voltam por vontade própria também podem senti-la, só que de forma menos aguda, porque têm tempo para se preparar.

“Quando escolho migrar, mesmo que seja difícil, a decisão é minha. Com a escolha, existe uma história, que também tem sofrimento, saudade e incerteza. Mas com a imposição, existe uma ruptura”, completa Sebben.

Hoje, depois de quase 10 anos nos EUA, Pabline tenta se reconstruir financeiramente como manicure, faxineira e trabalhando com redes sociais em Minas Gerais, sua terra natal.

“Estou fazendo de tudo”, disse. “Nos primeiros dias, tinha medo de dormir. Fechava os olhos e achava que ainda estava presa.” As informações são do jornal O Globo.

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