Além da distância da família e dos amigos, desafio para quem decide viver em outro país, milhares de brasileiros que moram no exterior convivem atualmente com as mudanças de rotina geradas pela tentativa de conter os avanços de uma pandemia.
Dados do Ministério das Relações Exteriores apontam que mais de 102 mil brasileiros possuem residência na Alemanha. O país é considerado exemplo no controle de casos do novo coronavírus por ter melhor controlado o número de mortes e casos, em relação a outros países.
Para chegar a este resultado, a Alemanha realizou forte aposta no isolamento social com testagem da população.
O professor Felipe Araújo, que nasceu no Piauí e morou em algumas cidades do Paraná, se mudou para Berlim há quatro anos, com a esposa, que é alemã.
O casal está em isolamento, com o filho, de cinco anos.
Araújo conta que a Alemanha iniciou tardiamente as medidas contra a Covid-19, mas que o sistema eficiente de saúde, com ampla oferta de leitos, fez a diferença.
As escolas em Berlim estão fechadas. Felipe relata que o filho, após o longo tempo em casa, já vem se mostrando entediado. Nessas horas, a vocação artística do pai é a solução.
“A gente fez muita música, criou histórias infantis, com ilustrações dele. A gente coletou pedras para pintar. Aproveitei este período para ensiná-lo a ler e a escrever”, comenta.
Reações à pandemia
Camila Ciola, de Rio Negro, no Paraná, mora em Colônia. Ela lembra que as primeiras atividades a serem interrompidas foram as aulas presenciais da filha, que passou a estudar em casa. Depois, o marido começou a trabalhar em home office.
Com as medidas anunciadas pelo governo e as notícias sobre o novo coronavírus, ela diz que acompanhou com preocupação o avanço dos riscos da pandemia.
“Alemães indo ao mercado, comprando comidas enlatadas. Achamos que até os supermercados poderiam ser fechados. Fomos acompanhando os avisos, os pronunciamentos”, lembra.
A brasileira conta que, atualmente, se sente segura ao ver os números do país, com o controle dos casos e de mortes pelo coronavírus.
Controle de casos
De acordo com dados compilados pela Universidade Johns Hopkins, nos primeiros 50 dias, a Alemanha registrou 7.272 casos confirmados da Covid-19. Neste período, foram 17 mortes por coronavírus no país.
No Brasil, no período de 50 dias desde o primeiro caso da doença, foram 28.320 confirmações de pacientes infectados e 1.736 mortes, de acordo com o mesmo levantamento.
O primeiro caso de pessoa infectada pela Covid-19 na Alemanha foi registrado em 27 de janeiro. O paciente, da Baviera, não tinha histórico de viagem para o exterior, segundo as autoridades de saúde.
Quase um mês depois, em 25 de fevereiro, o país não havia registrado nenhuma morte pelo coronavírus, e possuía 17 casos da doença.
Em 22 de março, com 94 mortes contabilizadas na Alemanha, o governo proibiu encontros em público com mais de duas pessoas. Até quarta-feira (15), o país havia registrado 134.753 casos de coronavírus.
O paranaense Thomás Preis, gerente na área de tecnologia da informação, conta que na região onde mora com a esposa Fernanda, em Stuttgart, o afastamento dos centros urbanos permite algumas vantagens neste período de isolamento social.
Thomás relata que a rotina do casal tem sido, em maior parte, dentro de casa, trabalhando e respeitando as medidas de isolamento, mas que conseguem sair para caminhar e andar de bicicleta.
Os dois se mudaram para a Alemanha em 2017 e produzem conteúdos em podcast nos quais compartilham as experiências que vivem em terras alemãs.
Preocupação com o Brasil
Em território com melhores números diante do vírus, os brasileiros acompanham com atenção a situação das cidades onde possuem familiares e amigos.
“Eu leio as notícias aqui da Europa e as do Brasil todos os dias, e as noticias do Brasil deixam a gente preocupado. Tendo amigos e familiares no Brasil, dá um aperto no coração”, diz Felipe Araújo.
O professor visitou os familiares brasileiros há cerca de 10 meses, e destaca que “assim que as coisas acalmarem”, deve viajar para vê-los novamente. “Fico muito mais preocupado com a família lá, do que com a minha família aqui, na Alemanha”, conclui.
