Enquanto os Estados Unidos e outros países ocidentais correm para fechar as embaixadas e remover seus cidadãos, nações vizinhas ao Afeganistão começam a se preparar para a convivência com o Talibã e apontam os dedos para os Estados Unidos. Quase 20 anos após a invasão americana derrubá-lo, o grupo extremista tomou Cabul no domingo, voltando efetivamente ao poder.
Até a manhã desta segunda-feira (16), as embaixadas da China, da Rússia, do Paquistão continuavam a funcionar, algumas delas com pessoal reduzido. Nas últimas semanas, à medida que a volta do Talibã ao poder se tornava cada vez mais provável, chineses, russos e iranianos já sentavam-se à mesa com os insurgentes de olho na segurança de suas fronteiras.
Os primeiros pronunciamentos da vizinhança são mais amenos que os ocidentais: o mais contundente veio do Paquistão, acusado de financiar e apoiar o grupo fundamentalista desde seu surgimento, nos anos 1990. Em um vídeo transmitido pela televisão estatal no domingo, o premiê Imran Khan aparece dizendo que o grupo “rompeu as correntes da escravidão mental”.
O Paquistão, que de 1996 a 2001 foi um dos três países a reconhecer o regime do Talibã, é há anos um porto seguro para os combatentes do grupo, apesar de negar qualquer tipo de assistência militar ou financeira. Setores mais progressistas, contudo, temem que o retorno talibã ao poder fortaleça grupos islamistas radicais paquistaneses.
A Chancelaria russa, por sua vez, anunciou o estabelecimento de contatos com representantes das “novas autoridades afegãs” apesar de considerar o Talibã uma organização terrorista desde 2003. O embaixador de Moscou se encontrará com representantes do Talibã nesta terça, disse o Kremlin, afirmando que os insurgentes prometeram “garantir a segurança do povo local”.
De acordo com os russos, a situação na capital afegã está “se estabilizando” e um “banho de sangue entre os civis foi evitado”. Disseram, contudo, que não correrão para reconhecer o grupo como mandatário legítimo do Afeganistão – vão “ver cuidadosamente” como o Talibã vai se portar antes de “adotar as conclusões necessárias”. Na sessão de emergência do Conselho de Segurança da ONU, afirmaram que “não há motivo para pânico”.
Se o grupo fundamentalista tem suas origens nos escombros da ocupação do Afeganistão pelos soviéticos (1979-1989), hoje o Kremlin preza pela estabilidade na Ásia Central, região onde exerce grande influência. Em paralelo ao diálogo com o Talibã, Moscou realizou nas últimas semanas exercícios militares com o Uzbequistão e o Tadjiquistão.
Moscou busca também deter a expansão de células terroristas do Estado Islâmico e da al-Qaeda que, apesar de diminutas, continuam a existir.
Pequim, por sua vez, disse que deseja manter “relações amistosas” com os talibãs e que respeita “o direito do povo afegão de decidir seu próprio destino e futuro”. Segundo a porta-voz da Chancelaria chinesa, Hua Chunying, “os talibãs indicaram várias vezes a esperança de desenvolver boas relações com a China”.
A China vinha criticando nas últimas semanas a condução da retirada das tropas americanas, chamando-a de “irresponsável” e apontando para o risco de uma guerra civil no país. A maior preocupação de Pequim é de que o Afeganistão sob o comando do Talibã seja um solo para extremistas.
O temor é de que surja um movimento demandando a independência da província chinesa de Xinjiang, onde 60% da população é muçulmana, principalmente da etnia uigur. Os chineses, porém, seguem com sua política de dialogar com quem está no poder, desejando um Talibã de postura mais moderada.
O Irã também havia recebido os talibãs nas últimas semanas, quando as forças extremistas já controlavam a maior parte da fronteira de 950 km entre os dois países, apesar de sua relação histórica de inimizade: o regime iraniano é xiita, enquanto o Talibã é sunita fundamentalista.
O país, contudo, é o principal destino para quem foge da nação vizinha, abrigando até o mês passado 780 mil refugiados afegãos registrados e até 2,5 milhões sem documentos, apesar de incentivá-los a voltar para casa em meio à dramática situação econômica da República Islâmica, sufocada pelas sanções americanas.
“O Irã apoia os esforços para restaurar a estabilidade no Afeganistão e, como uma nação vizinha e irmã, convida todos os grupos no Afeganistão a chegar a um acordo nacional”, disse o presidente Ebrahim Raisi, que defende um governo afegão que inclua todos os grupos sectários e étnicos do país.
A Índia, simultaneamente, tinha um canal secreto de negociações com o grupo extremista, segundo o jornal Hindu Times: o objetivo era não só proteger seus investimentos, mas impedir que um futuro regime seja uma marionete do Paquistão e que grupos armados anti-Índia patrocinados pelo Paquistão se fortaleçam.
O país, contudo, já retirava há dias seu pessoal diplomático, mas, segundo a imprensa local, cerca de 200 indianos e aliados afegãos permanecem em Cabul. Nova Délhi prometeu também ajudar sikhs e hindus afegãos, afirmando que vai facilitar sua ida para a Índia. As informações são do jornal O Globo e de agências internacionais de notícias.
