Um exame de sangue pode ajudar a estimar quando uma pessoa deve começar a apresentar sintomas da doença de Alzheimer, afirma um estudo publicado neste mês na revista Nature Medicine.
A proposta é transformar um marcador biológico detectado no sangue em uma espécie de “relógio” da doença. Segundo os cientistas da Washington University School of Medicine, nos Estados Unidos, responsáveis pelo estudo, o método conseguiu prever o início dos sintomas com margem de erro de três a quatro anos.
Hoje, alterações ligadas ao Alzheimer podem ser identificadas por exames como o PET, uma tomografia que detecta o acúmulo de proteínas no cérebro. O problema é que o exame é caro e pouco acessível. Por isso, os pesquisadores apostaram em um biomarcador medido no sangue.
“Nosso trabalho demonstra a viabilidade do uso de exames de sangue, que são substancialmente mais baratos e acessíveis do que exames de imagem cerebral ou análises do líquido cefalorraquidiano, para prever o início dos sintomas de Alzheimer.”, disse Suzanne E. Schindler, neurologista, autora sênior do estudo, em nota da universidade.
O foco do estudo é prever não apenas se, mas também quando, a pessoa começará a desenvolver a doença. “Seria útil para ensaios clínicos e, futuramente, para a prática clínica”, avalia os cientistas.
Como funciona o “relógio”
O exame analisa uma proteína chamada tau, ligada ao Alzheimer. Quando a doença começa a se desenvolver, parte dessa proteína sofre uma alteração química. O teste mede a proporção da tau alterada no sangue, chamada p-tau217. Quanto maior essa porcentagem, maior o risco de que o processo da doença já esteja em curso no cérebro.
Os pesquisadores observaram que essa proporção aumenta ao longo dos anos seguindo um padrão relativamente previsível. A partir disso, criaram modelos matemáticos capazes de estimar quanto tempo falta até o surgimento dos sintomas.
“Os níveis de amiloide e tau são semelhantes aos anéis de crescimento de uma árvore, se soubermos quantos anéis uma árvore tem, sabemos quantos anos ela tem sabemos quantos anos ela tem.”, disse Kellen K. Petersen, um dos autores do estudo.
A amiloide e a tau também se acumulam em um padrão consistente. “[…] E a idade em que se tornam positivas prevê fortemente quando alguém vai desenvolver sintomas de Alzheimer. Verificamos que isso também é verdadeiro para a p-tau217 no plasma, que reflete tanto os níveis de amiloide quanto de tau”, explicou Petersen.
De acordo com o comunicado da WashU, o estudo incluiu 603 adultos mais velhos que viviam de forma independente na comunidade. Os dados vieram de duas grandes bases de pesquisa: o Knight Alzheimer Disease Research Center, ligado à universidade, e a Alzheimer’s Disease Neuroimaging Initiative, que reúne centros de pesquisa em diferentes regiões dos Estados Unidos.
O texto da universidade dá um exemplo para ilustrar os resultados. Se a p-tau217 estava elevada aos 60 anos, os sintomas surgiram cerca de 20 anos depois. Se a elevação apareceu apenas aos 80, os sintomas vieram em torno de 11 anos depois. Para os autores, isso reforça a utilidade do modelo ao selecionar voluntários com maior risco de desenvolver sintomas dentro de uma janela de tempo relevante para um ensaio clínico.
Por enquanto, a principal aplicação da ferramenta deve ser em estudos e testes de novos tratamentos. Para uso individual na prática clínica, os próprios pesquisadores indicam que ainda são necessários mais dados. Com informações do portal O Uol.
