Para quem recebe o diagnóstico de câncer de reto e a indicação de cirurgia, uma das maiores preocupações é a colostomia: abertura no abdome por onde as fezes saem para uma bolsa externa. Evitar esse desfecho sem comprometer a cura é o foco do trabalho do cirurgião americano John H. Marks, um dos nomes mais importantes da evolução da cirurgia transanal para o tratamento do câncer de reto, que esteve no Brasil para participar do 74º Congresso Brasileiro de Coloproctologia, em Balneário Camboriú (SC).
Em 2008, na Filadélfia (EUA), ele fez a primeira cirurgia de excisão total do mesorreto por via transanal. Em pacientes selecionados, isso pode evitar a colostomia definitiva. O trabalho de Marks dá continuidade à tradição iniciada pelo pai, Gerald Marks, que, nos anos 1980, desenvolveu uma abordagem transanal para tumores muito baixos, justamente buscando ampliar a possibilidade de preservação do esfíncter.
1) Há algumas décadas, a maioria dos pacientes com câncer de reto acabava com uma colostomia permanente. O que mudou?
Ainda hoje, um em cada quatro pacientes com câncer de reto termina com uma colostomia permanente. Em alguns lugares, chega a 40%. Muitas coisas mudaram (nas últimas décadas). Primeiro, a radioterapia e a quimioterapia antes da cirurgia dão aos cirurgiões novas opções para evitar colostomias permanentes. Segundo, do ponto de vista técnico, os cirurgiões foram mais bem treinados nas técnicas para evitá-las, e a robótica e a laparoscopia ajudaram nisso.
2) O senhor e seu pai desenvolveram uma técnica cirúrgica diferente da protectomia padrão, para preservar o esfíncter. Como funciona?
Desenvolvemos uma cirurgia no reto que começa por baixo do tumor. Isso nos dá uma margem de segurança em relação ao câncer. Esse é o principal benefício, e nos permite fazer primeiro a parte mais difícil da operação. Quando combino isso com a cirurgia robótica, fica muito mais fácil. Na nossa unidade, com essas técnicas, a necessidade de colostomia permanente é de só 7%, enquanto nos EUA é de cerca de 25%.
3) Quais fatores determinam quem pode evitar a colostomia e quem não pode?
Quanto a quem é candidato à preservação do esfíncter, primeiro, o paciente precisa ter bom controle intestinal antes de adoecer. Se já tinha escapes antes, se já era incontinente, essa não é uma boa opção, porque continuaria incontinente. Então, ele precisa ter boa função do esfíncter desde o início. Segundo, o câncer precisa diminuir para não ficar aderido ao músculo. O ponto central é que ajudamos a abrir caminho no tratamento do câncer e na redução do tamanho do tumor antes de operar. Isso nos permite duas coisas: a preservação do esfíncter e do órgão, quando nem precisamos retirar o reto.
4) O que o paciente deve esperar, de forma realista, desses procedimentos?
A primeira coisa que digo aos pacientes, depois de avaliarmos tudo, é se estamos ou não tratando para curar o câncer. Essa é a questão número um: o câncer se espalhou? Podemos retirá-lo e evitar que volte? A pergunta seguinte é se conseguimos fazer isso com a melhor qualidade de vida possível. Então é preciso ter uma conversa com o paciente e tomar uma decisão centrada nele. O paciente precisa dizer ao cirurgião o que é mais importante para ele. Algumas pessoas não querem lidar com nada; ficariam mais felizes com a bolsa e nunca mais pensariam nisso. Se for o caso, podem ficar com a bolsa, comer o que quiserem e não se preocupar. Já os pacientes motivados a evitar a bolsa podem esperar várias coisas. Primeiro, não vai ser normal como era antes de o reto ser retirado. Isso não significa que não terá boa função ou qualidade de vida, mas será diferente depois da cirurgia. Leva um tempo para se adaptar, talvez alguns meses ou anos. É diferente para cada paciente. No começo, eles precisam prestar atenção ao que comem e ter cuidado com a dieta, evitando o que provoca evacuações mais soltas. Também podem precisar de medicamentos para ajudar a firmar as fezes. (Com informações de O Estado de S. Paulo)
