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Ciúme: quem ama cuida ou vigia?

É importante distinguir o ciúme cotidiano daquele que assume proporções patológicas. (Foto: Divulgação)

Existe um detetive morando dentro de alguns relacionamentos. Ele não usa distintivo, não tem salário e trabalha 24 horas por dia. Seu equipamento inclui um celular, uma imaginação fértil e a capacidade de transformar um simples “oi” em evidência de traição. Às vezes, esse detetive dorme na mesma cama que o casal.

O ciúme é humano e pode surgir diante do medo de perder alguém importante. Sentir ciúme não significa, por si só, que exista um problema. A questão começa quando ele deixa de ser ocasional e passa a comandar a vida a dois.

Antigamente, talvez o motivo fosse uma conversa demorada numa festa ou um sorriso trocado na rua. Hoje, temos um cardápio de suspeitas: curtidas, seguidores, mensagens visualizadas, fotos antigas, colegas de trabalho e até aquela atriz bonita da televisão. Tem gente que não assiste à novela: faz uma investigação paralela sobre o elenco!

E o problema não termina quando o celular é desligado. Um encontro com amigos vira interrogatório. Uma visita à família desperta desconfianças. Um atraso de quinze minutos rende um roteiro inteiro, com personagens e uma traição que só aconteceu na imaginação de quem a construiu.

Quando existe insegurança, o silêncio pode parecer rejeição, uma demora vira suspeita e uma situação ambígua é interpretada como prova. O pensamento cria hipóteses, a emoção reage como se fossem fatos e a pessoa busca confirmações. Instala-se um ciclo doloroso: quanto mais se vigia, mais motivos parecem existir para desconfiar.

É importante distinguir o ciúme cotidiano daquele que assume proporções patológicas. Neste, as suspeitas podem se tornar persistentes, desproporcionais e resistentes às explicações, provocando sofrimento intenso e comprometendo a vida do casal. Interrogatórios constantes, invasão de privacidade, exigência de senhas, acusações sem evidências e tentativas de controlar roupas, amizades ou deslocamentos não são demonstrações de amor. São sinais de alerta.

Por trás desse sofrimento, podem existir medo de abandono, insegurança, experiências dolorosas ou dificuldade para lidar com a incerteza. Cada história é única. Compreender não significa justificar: quem sofre merece acolhimento e ajuda profissional, mas o sofrimento não dá a ninguém o direito de aprisionar outra pessoa.

E o que fazer quando algo incomoda? Conversar antes de condenar. Em vez de afirmar “você está escondendo alguma coisa”, experimentar dizer: “Essa situação me deixou inseguro e gostaria de conversar”. Parece simples, mas exige maturidade para diferenciar o que aconteceu daquilo que imaginamos.

O casal precisa construir acordos claros, respeitar limites e cultivar a confiança. Isso não significa ignorar desrespeitos, mas conversar sobre fatos e necessidades sem transformar cada desconforto em investigação criminal.

A confiança não nasce da fiscalização permanente. Quem tenta controlar todos os passos do outro pode até conseguir respostas, mas dificilmente encontrará paz em cada nova verificação. O alívio dura pouco quando a raiz do medo continua sem cuidado.

Quando o ciúme provoca sofrimento intenso, prejudica a convivência ou leva ao controle, a psicoterapia pode ajudar a reconhecer gatilhos, rever interpretações e desenvolver maneiras mais saudáveis de lidar com as emoções. Se houver ameaças, intimidação ou violência, a prioridade deve ser a segurança.

Pergunte-se: você está cuidando do relacionamento ou tentando controlar tudo o que não consegue controlar dentro de si?

O ciúme pode bater à porta de um relacionamento. O problema começa quando recebe as chaves da casa, escolhe quem pode entrar e passa a vigiar até as janelas.

Porque amar alguém é construir um lugar onde os dois possam permanecer por escolha, não por medo.

Quem ama, cuida. Quem vigia, aprisiona o outro.

Até a próxima consulta.

* Tatiane Scotta, psicóloga, sexóloga e palestrante

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