No século passado, o Uruguai era chamado de Suíça da América Latina, primeiro por ter sido pioneiro na implementação de medidas de bem-estar social e, mais tarde, oferecido a estrangeiros um mercado financeiro sem grandes controles até a crise econômica argentina de 2001, que fez tremer os bancos de seu pequeno vizinho.
Hoje, o país é visto como uma espécie de ilha paradisíaca na região, por seu bom desempenho no combate à pandemia que, somado a uma invejável estabilidade em matéria econômica, política e social, rendeu-lhe o terceiro posto num ranking de melhores lugares para se mudar após a crise sanitária mundial, segundo a revista americana Business Insider. O primeiro colocado foi a Austrália, e o segundo, a Nova Zelândia.
Herança bendita
O esperado “novo normal” já chegou ao Uruguai. Teatros e cinemas foram reabertos, assim como escolas e shoppings, em todos os casos com rigorosos protocolos de prevenção da Covid-19. A economia nunca parou totalmente, já que o governo do presidente Luis Lacalle Pou, empossado em 1º de março, confiou, desde o primeiro dia, na responsabilidade da população. Não foram implementadas quarentenas, e os maiores esforços foram dedicados a rastrear casos de contágio. Assim, o país, onde vivem 3,5 milhões de pessoas, acumulou até esta segunda 1.693 casos positivos e 45 mortes. A Nova Zelândia, outro dos países elogiados por sua atuação na pandemia, registrou 24 óbitos e 1.776 casos do contágio.
Com isso, o Uruguai está atraindo o interesse de cidadãos do Mercosul, sobretudo argentinos. Segundo informações confirmadas por fontes locais, mais de 25 mil argentinos fizeram consultas nos últimos meses sobre a concessão de residência no Uruguai. Alguns brasileiros também têm solicitado informações, e outros, como o embaixador José Eduardo Martins Felicio, já entraram com o pedido de residência na Chancelaria uruguaia. Felicio foi embaixador do Brasil no Uruguai e tem uma casa na região de Portezuelo, próxima ao balneário de Punta del Este. Para lá foi no último verão, como faz todos os anos, e lá ficou, com a mulher, Miriam, quando a pandemia instalou-se no continente.
“Nunca tínhamos ficado um período tão longo no Uruguai, mas não pretendemos retornar ao Brasil por razões sanitárias e políticas. Já pedimos a residência”, contou o embaixador aposentado ao jornal O Globo.
“Pense que estamos a 700 quilômetros de Porto Alegre, muitos gaúchos têm casa nesta região”, comentou o embaixador.
O governo de Lacalle Pou aprovou recentemente medidas facilitando ainda mais a concessão de residência permanente e fiscal, deixando claro que seu interesse em receber imigrantes do mundo inteiro. O Uruguai tem um problema crônico de envelhecimento da população, e aumentar a chegada de estrangeiros é um dos principais objetivos do novo governo.
Alguns elementos ajudam o governo de centro-direita, que hoje conta com mais de 60% de respaldo popular. O presidente herdou uma economia em processo de desaceleração, mas não mergulhada numa recessão, como foi o caso na Argentina. Os três governos sucessivos da esquerdista Frente Ampla melhoraram de forma expressiva os indicadores sociais, e hoje o Uruguai tem menos de 10% de sua população abaixo da linha da pobreza. O PIB uruguaio fechou o ano de 2019 com 0,2% de variação positiva, acumulando 17 anos de crescimento consecutivos. Para este ano, estima-se uma queda um pouco acima de 3%, longe dos mais de 10% projetados na Argentina e 17% no Peru.
O sistema de saúde é sólido e em momento algum chegou ao limite. O Uruguai, explicou o consultor político Federico Irazabal, “é um país pequeno, simples de controlar, mas também com uma estabilidade política admirável”.
“Apesar de algumas tentativas isoladas de ataque ao governo, a grande maioria da oposição atuou em sintonia com o Executivo no combate à pandemia. Temos um governo e uma oposição responsáveis”, frisou Irazabal.
Lacalle Pou, do Partido Nacional, é assessorado por um pequeno comitê científico de especialistas e foi eficiente na busca de consensos com outros partidos e setor privado. Houve uma boa comunicação de risco, central em qualquer estratégia de contenção de uma pandemia, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde).
O sistema de seguro desemprego impediu a perda de postos de trabalho e garantiu às empresas e aos trabalhadores um panorama previsível durante os piores momentos da crise. Em Montevidéu não se observa, como em outras cidades latino-americanas, um aumento da pobreza em consequência da pandemia.
