A pandemia acossa os países do Cone Sul da América do Sul, onde nem a política permissiva do Uruguai nem os confinamentos obrigatórios da Argentina impediram que os países liderem as taxas mundiais de mortalidade mundial por covid, juntamente com o Paraguai. Com exceção do Chile, 15 meses após o aparecimento do vírus na região, esses três países vivem hoje o pior momento da crise sanitária.
Na sexta-feira, o Paraguai registrou uma média semanal de mortes diárias por milhão de habitantes de 15,78, a maior do mundo, segundo o site Our World in Data, da Universidade de Oxford. O Uruguai vem em seguida, com 15,42, seguido da Argentina, com 10,86. Já no Chile a taxa está em 4,78.
A prevalência da variante do vírus surgida no Brasil e o aumento da mobilidade podem explicar o agravamento, concordam os especialistas.
“A carga suportada pelos serviços de saúde, inclusive para pacientes graves e em unidades de terapia intensiva, ainda é muito alta na maioria dos países do Cone Sul — alertou Sylvain Aldighieri, gerente de incidentes para a covid da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas).
Aldighieri advertiu para a pressão que “virá com o início do inverno, que historicamente coincide com o período das doenças respiratórias agudas”, e exortou as autoridades a aplicar e fiscalizar com rigor as medidas de prevenção da contaminação.
Com 3,6 milhões de habitantes, o Uruguai também tem hoje números “históricos” de internações em unidades de terapia intensiva (UTI), disse Julio Pontet, presidente da Sociedade Uruguaia de Medicina Intensiva. “As pessoas não acreditam” na gravidade do vírus, disse à AFP o intensivista Francisco Domínguez.
Até que tenham um parente aqui, elas não acreditam.
Para proteger a economia, o presidente Luis Lacalle Pou defende a “liberdade responsável” dos cidadãos e se recusou a confinar a população, apesar da pressão do sindicato médico e de setores da oposição e da sociedade civil.
Além disso, o ritmo intenso de imunização — 28,6% da população completamente imunizada e 49,3% com uma dose — ainda não se refletiu claramente na curva de contágio e mortalidade, como já está acontecendo no Chile.
A campanha de vacinação já chegou aos jovens uruguaios. Florencia de Britos, de 19 anos, encarou na quarta-feira a longa fila de um posto móvel de vacinação no departamento de Canelones, uma iniciativa do governo destinada a inocular habitantes de áreas menores ou de difícil acesso.
“Obviamente, não vou sair da fila” disse. Sempre quis ser vacinada.
Na Argentina, o cansaço se faz notar após um ano de toques de recolher e confinamentos, que recentemente foram alternados com períodos de flexibilização.
“Estou uma pilha de nervos, tive que ir ao psiquiatra”, reclamava Nadia Mariella, aposentada de 73 anos, após se vacinar no estádio coberto Luna Park, em Buenos Aires.
No sábado, o país iniciou nove dias de quarentena total para enfrentar um novo combate, com uma média diária sem precedentes de 30 mil infecções e quase 500 mortes. Comportamentos irresponsáveis, adoção tardia de restrições mais duras, falta de vacinas e as novas e mais agressivas variantes do vírus explicam a voracidade dessa nova onda, segundo Elisa Estenssoro, integrante do comitê de especialistas que assessora o governo de Alberto Fernández.
“Os hábitos da população não são coerentes: encontros sociais, gente sem máscara… Tem uma parte que cumpre e outra que nega ou se rebela”, disse.
O sistema de saúde também está no limite. Em Neuquén (sudoeste), o Hospital Heller, o maior da província, fechou as portas por falta de oxigênio. No Hospital Durand, em Buenos Aires, há “falta de leitos e o pessoal está exausto”, contou o enfermeiro Héctor Ortiz.
“Os leitos são liberados por causa das mortes e logo são reocupados.
Na terça-feira, protestos convocados nas redes sociais ocorreram em várias cidades contra a nova quarentena, que divide um país que começava a dar sinais de reativação após três anos de recessão agravada pela pandemia. Em relação à vacinação, 20% dos habitantes do país receberam a primeira dose, mas apenas 5,6% tomaram as duas, ainda segundo o Our World in Data.
No Paraguai, por sua vez, a falta de insumos e vacinas é crítica. O governo de Mário Abdo Benitez estendeu o toque de recolher noturno até 7 de junho, enquanto a mobilidade diurna é pouco afetada, fundamentalmente com capacidade reduzida nos espaços públicos. Com informações do site de O Globo.
