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Com Flávio Bolsonaro favorito, direita terá mais poder do que polarização sugere

Flávio Bolsonaro (PL) terminou à frente, com 47% dos votos válidos, ante 45,2% de Lula. (Foto: Charles Vieira/Divulgação)

Numa eleição marcada pela apatia e pela frustração do eleitor com as lideranças do País, o primeiro turno deixou praticamente metade do Brasil animada com a iminência da derrota de Lula. A outra metade ficou consternada com a perspectiva de volta do bolsonarismo ao poder. Flávio Bolsonaro (PL) terminou à frente, com 47% dos votos válidos, ante 45,2% de Lula, e chega ao segundo turno, em 25 de outubro, como claro favorito.

Como argumentei algumas vezes neste espaço, o leve viés a favor da reeleição se apoiava na expectativa de que o presidente ganharia popularidade durante a campanha, como aconteceu com todos os presidentes que disputaram um segundo mandato.

Lula tentou de várias formas, com medidas de impacto como a restrição às bets e a redução da jornada, mas não conseguiu converter isso em apoio. Com a aprovação parada, pesaram mais a sensação de estagnação econômica e a preocupação com o crime organizado e a corrupção. Essa é a principal explicação para a vantagem de Flávio e seus aliados.

Porém, a divisão do eleitorado, que ainda aparece nas taxas de rejeição elevadas dos dois candidatos, não se reflete no balanço de forças para os próximos quatro anos na política institucional, que favorece amplamente a direita.

No Senado, a nova bancada tem condições de alcançar o quórum de dois terços para o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Antes da eleição, parecia que a oposição chegaria perto sem conseguir. Agora, somando o PL a outros partidos de direita e a nomes do centro que já declararam apoio, essa opção passou a ser o cenário-base da Eurasia Group.

Flávio terá plenas condições de aprovar reformas fiscais e administrativas, bem como mudanças no regime tributário, há muito aguardadas por empresários e pelo mercado financeiro. A reação do mercado nesta segunda-feira, com o dólar abaixo de R$ 5 e a Bolsa em alta, reflete essa expectativa, com projeções mais firmes de queda dos juros.

Isso, ainda assim, não livra um eventual governo Flávio de riscos. Ele deve começar o mandato num ambiente de desaceleração em 2027. Seus assessores econômicos têm reconhecido que levará algum tempo, talvez um ano e meio, para que as primeiras medidas surtam efeito, com os juros mais baixos trazendo oxigênio para a economia. Isso pode começar a corroer sua popularidade ao longo do primeiro ano. Ainda assim, um eventual desgaste nas pesquisas não desfaz a maioria construída nas urnas, sem precedentes na política institucional deste século 21.

É esse alinhamento ideológico em todas as instituições que exige atenção no médio e no longo prazo. Ao mesmo tempo em que facilita reformas, traz a tentação de captura institucional, com menos transparência e menos controle por parte de uma oposição enfraquecida. O resultado seria um alinhamento pleno entre Executivo, Congresso, Judiciário e Procuradoria, com maior capacidade de pressão sobre os quadros de órgãos como a Polícia Federal, o Itamaraty, e outras carreiras de Estado.

A degradação institucional dos últimos anos evoluiu no governo Lula, mas começou bem antes dele. A infiltração do crime organizado é um fenômeno de mais de uma década. As emendas parlamentares e a captura de agências reguladoras são problemas crônicos que vinham se agravando antes da pandemia.

O esquema do Banco Master cresceu antes de 2023 e envolve figuras que devem fazer parte de um eventual governo de Flávio. Vários estados com alinhamento político muito forte no passado recente conviveram com corrupção, captura por grupos de interesse e infiltração do crime, com pouco espaço para que escândalos viessem à tona. O Rio de Janeiro é o exemplo mais evidente. Com uma oposição enfraquecida, o risco é o enfraquecimento dos mecanismos de controle, com consequências que demorariam a ser revertidas. (Silvio Cascione/Estadão Conteúdo)

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