Roberlei Cardoso, após se aposentar como representante comercial em Cascavel (PR) em 2015, foi para Londres atuar no setor imobiliário. Ele e sua mulher, Leila Previati, que trabalha em um restaurante na capital britânica, sempre consideraram a vida financeira bem-sucedida na terra da libra. Mas, recentemente, estão se esforçando para economizar cada centavo — ou penny.
O motivo? Enviar o máximo possível para investir no Brasil, aproveitando a força da libra em relação ao real para pavimentar um retorno confortável ao país.
Assim como eles, outros expatriados estão enviando mais recursos para o Brasil, para comprar imóveis e investir em negócios, ao ver o dinheiro que ganham lá fora valer mais aqui com a forte e prolongada desvalorização do real.
Segundo dados do Banco Central, as remessas do exterior bateram recorde no primeiro semestre deste ano, somando US$ 1,89 bilhão, o equivalente a R$ 10,16 bilhões.
É o maior valor da série histórica do BC, iniciada em 2010, e uma alta de 24% em relação ao mesmo período de 2020 e de 36,5% frente ao de 2019, quando nem se pensava em pandemia.
“Quando a libra estava valendo R$ 5 entre 2018 e 2019, já era muito bom. Mas, quando começou a chegar a quase R$ 8, foi o momento de enviar tudo o que a gente tinha para o Brasil”, diz Cardoso, de 58 anos, que tem comprado imóveis no Brasil com as vantagens de quem ganha em uma moeda que terminou a semana passada em R$ 7,33, tendo chegado a R$ 7,93 em março.
E acrescenta: “A meta é, quando a gente voltar ao Brasil, ter um padrão de vida um pouco melhor do que aqui. Comprar imóveis é o caminho para ter uma sustentação quando a velhice chegar.”
Tempo de real fraco
Convertendo a cifra enviada pelos brasileiros lá de fora na primeira metade do ano, o pouco mais de R$ 10 bilhões equivale ao orçamento de três meses do Bolsa Família e do auxílio emergencial, que ajudou a reduzir os impactos da pandemia na economia.
Desde 2004 na Inglaterra, o advogado de imigração Tiago Soares, do escritório Ashton Ross Law, diz que as remessas de dinheiro para o Brasil costumam aumentar quando o real se desvaloriza, mas agora o movimento está mais intenso: “Ninguém imaginava que o câmbio fosse ficar tão alto por tanto tempo”.
Os dados do BC apontaram recordes entre janeiro e junho no envio de recursos de três países que têm comunidades brasileiras numerosas: EUA (US$ 946 milhões), Reino Unido (US$ 370,4 milhões) e Canadá (US$ 27,9 milhões).
De Portugal, outro destino popular entre brasileiros imigrantes, vieram US$ 101,3 milhões, no sexto semestre consecutivo com remessas acima de US$ 100 milhões.
Para a professora da Faculdade de Economia da Universidade Federal Fluminense (UFF) Julia Braga, esse fenômeno se deve a vários fatores. O primeiro é a crise econômica causada pela pandemia, que derrubou a renda de muitas famílias no Brasil e estimulou imigrantes a enviarem mais dinheiro aos parentes.
O segundo é a desvalorização do real, que gera oportunidades de investimento aqui para quem está lá fora. Julia cita ainda a falta de perspectivas econômicas no Brasil, que estimula mais gente a ir embora: “Há esse volume de pessoas que saíram em busca de novas oportunidades que, quando conseguem renda, passam a enviar mais recursos para investir ou ajudar parentes no Brasil. Vejo a crise brasileira como um fator importante”.
Além do mercado imobiliário, outros investimentos no Brasil atraem o dinheiro valorizado dos expatriados. Lúcio Santana, que trabalha com financiamento imobiliário em Deerfield Beach, na Flórida, conta que acaba de comprar 50% de uma escola em Campo Limpo Paulista (SP), de onde saiu há 23 anos para viver nos EUA.
Ele não tem planos de voltar a viver no Brasil, mas viu o fortalecimento do dólar frente ao real como uma oportunidade de investir em um negócio de educação na terra natal. A moeda americana voltou a subir e encerrou a semana passada em R$ 5,38.
“Não penso em voltar, mas sempre sonhei em ter um negócio no Brasil. Esse investimento pode fazer diferença na minha cidade”, diz Santana.
