Sem surpresas, o Banco Central (BC) anunciou, na semana passada, a manutenção dos juros em 15% ao ano. Mas, para aplacar a ânsia do mercado pela redução da Selic, voltou a adotar o chamado forward guidance, ferramenta de política monetária por meio da qual o BC antecipa suas intenções futuras, e indicou que começará a cortar as taxas na próxima reunião, marcada para março.
Com dois diretores a menos, o Comitê de Política Monetária (Copom) tomou a decisão de maneira unânime, mas é improvável que um quórum completo faria diferença. A atividade econômica desacelerou e o mercado de trabalho continua forte, mas a prévia da inflação de janeiro veio mais baixa do que se imaginava. Já a projeção para o IPCA no horizonte relevante que guia as decisões do colegiado, ou seja, daqui a 18 meses, no terceiro trimestre de 2027, está em 3,2% – acima do centro da meta, de 3%, mas bem perto dela.
Esse cenário leva em conta um câmbio a R$ 5,35. Mas a desvalorização do dólar, motivada pelas ciclotímicas decisões do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tanto nas searas econômica e comercial quanto no cenário geopolítico, é um movimento mundial que vem se acentuando nos últimos meses e tem impacto relevante na inflação do País.
Os estrangeiros, em menos de 30 dias de 2026, já injetaram na bolsa de valores brasileira mais da metade dos recursos que haviam aplicado ao longo de todo o ano passado na B3. Assim, o dólar chegou à menor cotação desde maio de 2024 e já há quem enxergue a possibilidade de o câmbio cair a R$ 5.
O diferencial entre as taxas de juro brasileira e norte-americana, hoje no intervalo entre 3,5% e 3,75% ao ano, certamente é um atrativo e tanto para os investidores, mas é inegável que o Brasil, em termos relativos, está bem posicionado perante seus pares emergentes. O desempenho do agronegócio e a ampla oferta de energia limpa se somam ao recuo dos EUA no tarifaço e ao fechamento do acordo entre Mercosul e União Europeia, depois de décadas de letargia nas negociações.
Tudo isso animou o mercado financeiro, que já torcia por juros mais baixos em janeiro e, agora, vê espaço até para cortes mais ambiciosos em março, muito embora o Banco Central tenha deixado o cenário em aberto, a depender da evolução dos indicadores econômicos nas próximas semanas. A ata da reunião, a ser divulgada nesta semana, será aguardada com muita ansiedade.
Se há dúvidas sobre o tamanho do corte, o certo é que o comunicado garante que ele não será único, mas parte de um ciclo de queda cujo ritmo e manutenção ainda não foram definidos. Com juros em queda nos próximos meses, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva terá motivos de sobra para explorar o tema em sua campanha à reeleição, ainda que não tenha feito nada para ajudar.
Não fosse a política fiscal expansionista adotada por seu governo desde o primeiro dia, o Banco Central não teria elevado os juros a 15% ao ano, maior nível desde 2006, nem mantido a Selic nesse patamar por tantos meses. Mas esse mea culpa Lula jamais fará. (Editorial publicado em O Estado de S. Paulo)
