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Como o governo Lula vê o telefonema com Trump e o impacto dele nas eleições

Na sexta-feira (21), Lula e Trump conversaram por telefone durante uma hora e vinte minutos. (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

A conversa telefônica entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil, e Donald Trump, dos Estados Unidos, na sexta-feira (21), marcou a retomada do diálogo entre os dois após meses de crise nas relações dos dois países. Apesar disso, o governo vê o contato, o primeiro em três meses, com cautela.

Assessores do presidente Lula acreditam que a conversa foi positiva, mas estaria longe de significar uma “normalização” das relações entre EUA e Brasil, estremecidas por uma série de medidas tomadas de lado a lado como o novo tarifaço norte-americano a produtos brasileiros e revogação de vistos a diplomatas dos dois países.

Segundo eles, o diálogo entre Lula e Trump pode tornar mais difícil a hipótese de que Trump se manifesta diretamente durante as eleições presidenciais, nas quais Lula tenta um quarto mandato.

Por outro lado, eles ainda avaliam que outros membros da administração norte-americana podem tentar interferir na disputa.

A Casa Branca confirmou a ocorrência da conversa, mas não deu detalhes sobre o seu conteúdo.

Segundo nota divulgada pelo governo brasileiro, a conversa ocorreu em tom “cordial e amistoso”, durou uma hora e vinte minutos e foi feita por iniciativa de Lula.

A chamada é vista como resultado de uma estratégia do governo brasileiro que vinha poupando Trump das críticas mais duras ao tarifaço e centrando fogo no secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, justamente para manter abertos canais de comunicação com o presidente.

O telefonema foi o primeiro contato oficial entre os dois desde o encontro na Casa Branca, em maio. Naquela ocasião, o governo brasileiro tentava evitar novas tarifas contra produtos nacionais e convencer Washington a não classificar facções brasileiras como organizações terroristas.

Trump chegou a prometer que os dois países criassem um grupo de trabalho para discutir o assunto, mas nas semanas seguintes, o governo Trump anunciou a imposição de um novo tarifaço e classificaram o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas, medida que o governo brasileiro também tentava evitar.

As medidas, tomadas logo após uma visita de Flávio Bolsonaro a Trump, foram atribuídas pelo governo brasileiro à ação da família Bolsonaro junto ao governo norte-americano e ao secretário de Estado norte-americano.

Eleições

Segundo pessoas que presenciaram a ligação, as eleições brasileiras apareceram no telefonema, mas de forma breve.

Segundo a BBC News Brasil, Trump quis saber como estava o processo eleitoral no Brasil, ao que Lula teria respondido que a disputa estava transcorrendo normalmente e manifestou sua confiança no sistema eletrônico de votação do país.

O assunto, segundo interlocutores, não avançou além disso.

No Planalto, a pergunta de Trump foi interpretada como uma referência protocolar. O tema chama atenção porque, há algumas semanas, Flávio Bolsonaro se reuniu com diplomatas de diversos países, inclusive dos EUA, e pediu que a comunidade internacional enviasse observadores para acompanhar as eleições brasileiras. Seu pai e aliados da direita já colocaram em dúvida a confiabilidade das urnas eletrônicas.

Apesar da retomada das conversas, o governo Lula não trabalha com a ideia de que as divergências com os EUA sejam resolvidas antes das eleições de outubro.

A avaliação é de que, caso vença, Lula terá mais dois anos de “convivência” com o governo Trump, o que exigiria tentativas de reaproximação.

A conversa ocorreu depois de uma sequência de episódios que elevaram a tensão entre os dois governos.

Em março, o Brasil revogou o visto de Darren Beattie, integrante do governo Trump que pretendia visitar Jair Bolsonaro na prisão.

O governo brasileiro negou o visto porque, ao fazer o pedido, Beattie mencionou apenas que viria ao Brasil para participar de um fórum econômico. Internamente, o governo brasileiro viu a tentativa de Beattie visitar Bolsonaro como uma possível interferência internacional em assuntos domésticos.

À época, o governo dos EUA não reagiu.

Em julho, porém, logo após o anúncio do novo tarifaço contra produtos brasileiros, Marco Rubio criticou publicamente Lula ao justificar as tarifas impostas ao Brasil.

No mesmo mês, mais uma fricção entre os dois países: o Itamaraty negou vistos a outros dois integrantes do Departamento de Estado, os diplomatas Riley M. Barnes e Samuel Samson.

Na época, o jornal norte-americano The Washington Post informou que o governo brasileiro via a viagem de Barnes e Samson ao Brasil como uma iniciativa do governo Trump com objetivo de questionar a integridade e a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro.

Em agosto, foi a vez de o governo norte-americano responder e revogou o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. (Com informações da BBC News Brasil)

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