No dia 8 de dezembro, 13 mulheres afirmaram terem sido molestadas sexualmente pelo médium João Teixeira de Faria, conhecido como João de Deus. Os depoimentos foram revelados pelo jornal O Globo e pelo programa Conversa com Bial, da TV Globo. Desde então, outras mulheres procuraram a imprensa e o Ministério Público para denunciar abusos sofridos. Há dezenas de relatos, e entre as vítimas estariam mulheres adultas, crianças e adolescentes. Abaixo, veja perguntas e respostas sobre as denúncias e entenda os desdobramentos que o caso já teve até agora.
Na sexta (14), a pedido do Ministério Público de Goiás, a Justiça determinou a prisão preventiva de João de Deus. Ele se entregou no domingo (16) em Abadiânia, Goiás.
1. Quem é João de Deus?
João Teixeira de Faria, o João de Deus, é um médium de 76 anos. Na Casa Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia (GO), ele realiza atendimentos em que supostamente oferece cura espiritual. Os tratamentos envolvem passes (transferência de energia com as mãos), cápsulas de passiflora, vendidas em uma farmácia própria, e cirurgias espirituais —atendimento que pode envolver cortes caso seja solicitado pelo fiel. Ele já recebeu, em Abadiânia, pessoas como a apresentadora americana de TV Oprah Winfrey, o ex-jogador Ronaldo Nazário e a artista plástica Marina Abramovic. O presidente Michel Temer (MDB) recebeu um passe do médium na véspera da delação de Joesley Batista. E o ministro do STF Luís Roberto Barroso também já se disse admirador de João de Deus.
2. O que se sabe até agora?
Os primeiros relatos de assédio foram revelados pelo jornal O Globo e pelo programa Conversa com Bial, da TV Globo. Nos últimos dias, dezenas de mulheres relataram a diferentes veículos de imprensa terem sido abusadas sexualmente pelo médium.
Algumas vítimas disseram que tiveram partes íntimas do corpo tocadas por João, outras, que ele as teria obrigado masturbá-lo ou a fazer sexo oral, sempre a pretexto de que estaria realizando um trabalho de cura. Elas afirmam que não haviam procurado a polícia por vergonha, receio de que não fossem levadas a sério e por temer represálias. Também há denúncias envolvendo crianças e adolescentes.
O delegado André Fernandes classificou os relatos de vítimas como contundentes e precisos. Ele afirmou que os depoimentos indicam que havia um padrão na conduta de João de Deus ao cometer os crimes. “O comportamento nesses depoimentos tem um modus operandi comum e isso foi traçado por diversas vítimas que não se conhecem. A gente percebe uma ‘igualdade'”.
3. Que providências foram tomadas pelo Ministério Público e pela Justiça?
A pedido do Ministério Público de Goiás, a Justiça determinou a prisão preventiva do médium. Esse tipo de prisão serve para garantir a aplicação da lei e pode ser determinada quando há evidências de que o crime foi cometido e que foi o acusado quem o praticou. A defesa afirmou que impetraria um habeas corpus, mas que isso não excluía a recomendação de que ele se entregasse. No domingo (16), João de Deus se entregou na encruzilhada de uma estrada de terra no município de Abadiânia (GO), às margens da BR 060. A negociação foi feita entre o advogado do médium, Alberto Toron, e o delegado geral da Polícia Civil.
4. Outras mulheres denunciaram o médium?
Existe uma força-tarefa nacional para investigar o caso e muitas mulheres e familiares de possíveis vítimas já entraram em contato com Promotorias em diversos Estados. Foram colhidos ao menos 30 depoimentos pelos Ministérios Públicos de SP, MG, RS, DF e ES. Em Goiás, a Promotoria recebeu ao menos 335 mensagens relacionadas ao caso. Também houve atendimento a mulheres de pelo menos seis países.
Há endereços de email para onde podem ser enviados relatos (somosmuitas@mpsp.mp.br, em SP, caopcrim@mpma.mp.br, no MA, e denuncias@mpgo.mp.br, em GO). As vítimas podem receber proteção especial em caso de necessidade.
5. Por quais crimes o médium pode ser acusado?
Algumas possibilidades são estupro, estupro de vulnerável, violação sexual mediante fraude ou importunação sexual. Especialistas afirmam que isso depende das circunstâncias de cada ato, analisado de forma individual.
Por ora, os crimes em apuração pela polícia são os de estupro e violação sexual mediante fraude.
Para a promotora do Ministério Público de São Paulo Silvia Chakian é possível que os atos sejam considerados como estupro de vulnerável. “Cada caso é um caso. Mas o uso de medicação e a situação psíquica e emocional são vulnerabilidades. Uma paciente em tratamento de doença terminal não teria condições de esboçar reação”, diz.
