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Conheça a cidade tcheca que deu ao mundo o dólar e a bomba atômica

A cidade de Jáchymov, com 2.700 pessoas, já foi a segunda maior cidade da Boêmia depois de Praga. (Foto: Reprodução)

O dólar americano é a moeda mais usada no mundo. É o padrão-ouro não oficial. Segundo o Fundo Monetário Internacional, 62% das reservas financeiras do planeta são mantidas em dólares — mais do que o dobro do total de reservas estrangeiras em euros (Europa), ienes (Japão) e renminbi (China) somados. Trinta e uma nações o adotaram como moeda oficial ou usam o mesmo nome para suas moedas; mais de 66 países vinculam o valor de suas moedas a ele; e agora é aceito em lugares tão distantes quanto a Coreia do Norte, Sibéria e estações de pesquisa no Polo Norte.

Um lugar onde o dólar não é aceito, porém, é a pequena cidade tcheca de Jáchymov — o que é irônico, porque foi nela, escondido nas montanhas arborizadas, que o dólar surgiu, 500 anos atrás, em janeiro de 1520. Mas quando puxei uma nota de um dólar com o rosto de George Washington da minha carteira no museu da Casa da Moeda de Jáchymov, o mesmo local onde os primeiros ancestrais do dólar foram cunhados, o professor Jan Francovič sorriu e me deteve.

Bem-vindo a Jáchymov: uma cidade sonolenta de 2,7 mil pessoas, perto da fronteira tcheco-alemã, que é a casa do dólar e um lugar onde não há nenhum dólar. Provavelmente, você nunca ouviu falar da cidade. Você provavelmente não sabia que ela se tornou Patrimônio Mundial da Unesco. E você provavelmente nunca soube que a moeda que alimenta o “mundo livre” se originou nesta cidade que ainda sofre após o colapso do comunismo e que tem mais bordéis do que bancos.

De fato, você pode passar um dia subindo e descendo a rua principal de Jáchymov, passando por seus edifícios góticos e renascentistas abandonados, pelo opulento aglomerado de spas na base do vale e ir até seu castelo do século 16 sem nunca perceber que era o berço do dólar.

Muito antes de Jáchymov existir, as montanhas ondulantes que separavam as regiões que hoje são Boêmia e a Saxônia eram governadas por lobos e ursos que vagavam por suas florestas virgens. Quando grandes quantidades de prata foram descobertas em 1516, o nobre empresário local, o conde Hieronymus Schlick, batizou a área de Joachimsthal (“vale de Joachim”) em homenagem ao avô de Jesus, o santo padroeiro dos mineiros.

“Na época, a Europa era um continente de cidades-Estado com governantes locais disputando o poder”, explicou o historiador local Jaroslav Ochec. “Sem uma unidade monetária padrão entre eles, uma das maneiras mais eficazes de os governantes afirmarem seu controle era cunhar sua própria moeda, e foi o que Schlick fez.”

A autoridade boêmia que governava na época concedeu oficialmente a Schlick permissão para cunhar suas moedas de prata em 9 de janeiro de 1520. O conde estampou uma imagem de Joachim na frente, o leão boêmio no verso e nomeou sua nova moeda “Joachimsthalers” — que logo foi reduzida para “Thalers”.

Numa época em que o conteúdo metálico das moedas era o único determinante do valor, Schlick fazia duas coisas inteligentes para garantir a propagação e a sobrevivência da moeda. Primeiro, ele fazia o thaler do mesmo peso e diâmetro da moeda de 29,2 g Guldengroschen, usada em grande parte da Europa central, o que facilitou a aceitação pelos reinos vizinhos. E, principalmente, ele cunhou o maior número de moedas que o mundo já tinha visto.

Quando os governantes da Europa começaram a remodelar suas moedas com base no thaler, eles também as renomearam em seus próprios idiomas. Na Dinamarca, Noruega e Suécia, o thaler ficou conhecido como o “daler”. Na Islândia, foi o “dalur”. A Itália tinha o “tallero”, que não deve ser confundido com o “talar” (Polônia), o “tàliro” (Grécia) ou o “tallér” (Hungria). Na França, era “jocandale” e “em pouco tempo havia cerca de 1.500 imitações circulando no Sacro Império Romano”, escreve Jason Goodwin em seu livro Greenback: The Almighty Dollar and the Invention of America (Greenback: O Todo-Poderoso Dólar e a Invenção da América, em tradução livre).

Quando as reservas de prata da cidade diminuíram, os mineiros começaram a encontrar uma misteriosa substância negra que levou a uma incidência alarmante de doenças pulmonares fatais. Eles chamaram o mineral de uraninita de “Pechblende” (“pech” significa “má sorte” em alemão). Enquanto vasculhava as minas da cidade em 1898, uma física chamada Marie Curie identificou que o mesmo minério que havia produzido os primeiros dólares continha dois novos elementos radioativos: rádio e polônio.

A descoberta desfigurou as mãos de Curie, acabou matando-a e a levou a se tornar a primeira mulher a ganhar um Prêmio Nobel. Mas também preparou o cenário para o improvável segundo ato da cidade: as mesmas minas que cunharam a moeda mais importante do mundo agora impulsionariam a corrida às armas nucleares.

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