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Consumidor rejeitará fim da escala 6×1 quando entender que vai pagar a conta, diz presidente de associação de bares e restaurantes

Uma das propostas proíbe a escala 6x1 e fixa como regra uma escala 4x3 — com três dias de descanso para cada quatro trabalhados. (Foto: GAI Midia)

Um governo oportunista, um Congresso refém de eleições e um empresariado omisso — resultando em uma sociedade desinformada.

As duras críticas são do empresário Paulo Solmucci para a forma como vem sendo conduzido no Brasil o debate sobre o fim da escala 6×1 — em que o funcionário trabalha seis dias na semana e tem apenas um dia de descanso.

Solmucci é presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) e empreendeu por mais de duas décadas com o grupo Solmucci, que administra grandes bares, restaurantes e casas noturnas em Belo Horizonte.

E — segundo ele próprio — um dos poucos empresários que está disposto a “dar a cara à tapa” em um debate que ganhou grande impulso nas redes sociais, virou uma petição com quase 3 milhões de assinaturas e este ano pode resultar em mudanças diretas na vida dos trabalhadores.

O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), já avisou que o tema será uma das prioridades do Congresso neste ano. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse no começo do mês que “nosso próximo desafio é o fim da escala 6×1 de trabalho, sem redução de salário”.

“O tempo é um dos bens mais preciosos para o ser humano. Não é justo que uma pessoa trabalhe duro toda a semana e tenha apenas um dia para descansar o corpo e a mente e curtir a família”, disse Lula em mensagem ao Congresso.

Atualmente dois Projetos de Emenda à Constituição estão avançando no Congresso. Apesar de algumas diferenças, ambos propõem a redução da jornada de trabalho de 44 para 36 horas semanais sem redução salarial.

Uma das propostas proíbe a escala 6×1 e fixa como regra uma escala 4×3 — com três dias de descanso para cada quatro trabalhados.

Quem é a favor das mudanças diz que elas trariam bem-estar e qualidade de vida a uma mão de obra hoje exausta, além de impactos econômicos positivos e alinhamento a tendências mundiais.

Mas Solmucci acredita que a sociedade ainda não está ciente dos custos econômicos que uma mudança dessas traria. O principal problema das duas propostas, segundo ele, é a redução da jornada dos trabalhadores com manutenção da mesma remuneração.

“Esse meu aumento de custo [do trabalho] de 20% implica em repasse de preços de 7% a 8% para o consumidor final. A pergunta que fica para o consumidor: ele está ciente disso? Ele concordaria com a redução da jornada para pagar mais [pelo serviço ou produto]?”, questiona.

O empresário diz não se posicionar contra o fim da escala 6×1, mas acredita que quando a sociedade e pessoas responsáveis (“há muitas pessoas sérias no governo e no Congresso”) fizerem o debate com mais informações, elas não aprovarão as mudanças trabalhistas na forma como elas estão propostas hoje.

Ele acredita que as relações de trabalho podem ser melhoradas no Brasil com o trabalho intermitente — modalidade criada na Reforma Trabalhista de 2017 que permite que o empregado seja convocado apenas quando o empregador precisar, com antecedência.

Para Solmucci, a popularidade que o assunto ganhou nas redes faz com que parlamentares e integrantes do governo não queiram se indispor com a população em um ano de eleição nesse assunto.

Confira abaixo trechos da entrevista à BBC News Brasil.

O senhor falou que o consumidor e os empresários vão acabar pagando mais. Mas hoje, pela lei atual, não são os trabalhadores que estão pagando o maior custo? Muitos trabalham em uma escala 6×1, ganham um salário mínimo, descansam apenas um dia por semana e passam grande parte do dia se deslocando para o trabalho. Isso não deveria mudar?

Solmucci – Pagar mais significa enriquecer. E você só enriquece com ganho de produtividade. Nenhuma nação foi capaz de enriquecer e pagar melhor sem antes promover ganhos de produtividade relevantes. A discussão que deveríamos estar pautando como obsessão nacional é como ganhar produtividade para pagar mais, melhor, e trabalhar menos. Não dá para fugir desta premissa, que é básica no mundo inteiro.

Outra questão importante é que hoje, no Brasil, 39% da mão de obra é informal. Esse número vem crescendo nos últimos anos. No meu setor, é 41%. Se fosse possível “canetar” para resolver problemas, não teríamos informalidade. Teríamos esses quase 40% dos brasileiros protegidos por legislações, férias, décimo-terceiro e salários maiores. Mas o que vemos são pessoas com dupla ou tripla jornada, trabalhando cinco dias em uma empresa por oito horas e pegando serviço à noite e no final de semana.

Temos que observar o que precedeu o enriquecimento no mundo e o que acompanhou a redução da jornada no mundo — foi sempre ganho de produtividade. Este assunto não é mencionado. O Brasil não discute produtividade. Com informações do portal BBC.

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