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Controlar o colesterol depois de um infarto é parte importante do tratamento para evitar novos eventos cardiovasculares

Durante seis meses, os cientistas acompanharam 1.465 pessoas com doença cardiovascular aterosclerótica. (Foto: Freepik)

Controlar o colesterol depois de um infarto é parte importante do tratamento para evitar novos eventos cardiovasculares. Ainda assim, atingir os níveis recomendados de LDL, o chamado colesterol “ruim”, continua sendo um desafio para parte dos pacientes.

Considerando essa dificuldade, pesquisadores brasileiros investigaram se o uso de aplicativos para apoiar as decisões médicas e acompanhar os pacientes após a consulta poderia ajudar a melhorar o controle do LDL. O estudo, batizado de SAPPHIRE-LDL, foi publicado em julho na revista JAMA Cardiology.

Durante seis meses, os cientistas acompanharam 1.465 pessoas com doença cardiovascular aterosclerótica atendidas em 28 ambulatórios públicos e privados do País. Entre elas, 68,1% já haviam sofrido um infarto.

Nos serviços que receberam a intervenção, a tecnologia passou a fazer parte da rotina de atendimento, auxiliando tanto os profissionais de saúde quanto os pacientes. Nos demais centros, o acompanhamento seguiu o modelo habitual. Ao final, os pesquisadores observaram que quem contou com a estratégia digital teve 86% mais chance de atingir a meta de LDL.

“Não foi testado um novo medicamento, mas uma combinação de medição rápida do LDL, apoio digital à decisão médica, educação do paciente, lembretes e monitoramento da qualidade do atendimento”, explica o cardiologista Raul Santos, pesquisador da Organização Acadêmica de Pesquisa (ARO) do Einstein Hospital Israelita.

Resultados do estudo

A meta usada como referência no estudo seguiu as recomendações para pacientes de muito alto risco cardiovascular. Segundo a Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose de 2025, esse grupo deve reduzir o LDL em pelo menos 50% e mantê-lo abaixo de 50 mg/dL.

Depois de seis meses de acompanhamento, a estratégia digital apresentou resultados melhores tanto no controle do LDL quanto na intensificação do tratamento.

Entre os pacientes acompanhados com auxílio da tecnologia:

– 23,5% atingiram a meta de LDL abaixo de 50 mg/dL;

– o LDL caiu, em média, 17,6% em relação ao início do estudo;

– 69,6% tiveram terapia combinada prescrita, ou seja, receberam indicação de mais de um medicamento para reduzir o colesterol, principalmente estatina associada à ezetimiba.

Entre aqueles que receberam o atendimento habitual:

– 13,4% atingiram a meta de LDL abaixo de 50 mg/dL;

– o LDL caiu, em média, 11,9%;

– 29,6% tiveram terapia combinada prescrita.

A comparação entre os grupos mostrou que os pacientes acompanhados com auxílio da tecnologia tiveram 86% mais chance de atingir a meta de controle do LDL.

“Isso não significa que o colesterol caiu 86%. O percentual se refere à maior chance de alcançar o nível recomendado em relação aos pacientes que receberam o atendimento habitual”, ressalta a cardiologista Karla Espírito Santo, líder de Estudos Descentralizados e Modelos Inovadores da ARO.

“A tecnologia mostrava quando o paciente estava fora da meta de LDL e sugeria ajustes no tratamento, como o uso de outros medicamentos além das estatinas. Ter o resultado do colesterol disponível na consulta também ajudou o médico a decidir sobre a prescrição”, afirma Raul.

O acompanhamento começava no próprio ambulatório. Antes da consulta, uma pequena amostra de sangue era retirada da ponta do dedo para medir o LDL. Em cerca de sete minutos, o resultado era enviado para a epScience, plataforma utilizada pelos profissionais de saúde.

Com o resultado disponível durante o atendimento, o médico conseguia saber se o paciente estava dentro da meta. Na epScience, também eram registrados os medicamentos prescritos, e o sistema apresentava recomendações de tratamento de acordo com o nível de LDL e as diretrizes. A decisão final sobre a prescrição continuava sendo do profissional.

Depois da consulta, o acompanhamento continuava pela epYou, aplicativo voltado aos pacientes. Por meio dele, os participantes recebiam lembretes para tomar os medicamentos, tinham acesso a conteúdos educativos e podiam se comunicar com a equipe de saúde. Quando necessário, também havia a possibilidade de atendimento por telemedicina.

Enquanto isso, as equipes recebiam pela epScience relatórios periódicos sobre o controle do LDL e os padrões de prescrição no serviço. Essas informações ajudavam os profissionais a identificar dificuldades no tratamento e acompanhar os resultados dos pacientes.

“A tecnologia conseguiu transformar informações que muitas vezes ficam dispersas em ações concretas de cuidado”, afirma Karla.

Desafios no controle do colesterol

Apesar da melhora observada com a tecnologia, 76,5% dos pacientes acompanhados com a estratégia não conseguiram chegar a um nível de LDL inferior a 50 mg/dL após seis meses. Segundo os pesquisadores, uma das explicações está na dificuldade de alcançar uma meta tão rigorosa apenas com os medicamentos mais utilizados para controlar o colesterol.

Raul afirma que, em muitos casos, estatinas e ezetimiba não são suficientes e o paciente pode precisar de terapias mais potentes, como os inibidores de PCSK9. “Esses medicamentos, no entanto, têm custo elevado e acesso limitado, o que representa uma barreira que a estratégia digital, sozinha, não consegue superar”, ressalta.

Limitações do estudo

O estudo também apresenta limitações. De acordo com Raul, os seis meses de acompanhamento não permitem saber se a melhora no controle do colesterol será mantida no longo prazo nem se poderá resultar na redução de infartos, acidentes vasculares cerebrais e outros eventos cardiovasculares.

Karla aponta ainda que a maioria dos centros participantes era especializada em cardiologia, o que limita a aplicação dos resultados à atenção primária. Por outro lado, a estratégia apresentou efeito semelhante nos serviços públicos e privados avaliados, indicando potencial de uso nos dois contextos. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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