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Conversas ao vento – flatus vocis – Alzira, Flora, Andrea, Mereval…

Durante uma viagem de avião conversas privadas são ditas ao vento. (Foto: Marlon Falcão/AE)

Viagem dessas entre tantas. Destino: São Paulo. Assardinhado no fundo do coletivo da Gol – um ônibus com asas – vi-me pertinho de duas senhoras. Sou cartão fidelidade que me dá direito ao assento conforto, só que a aeronave estava cheia.

Beirando os 50 anos, bem apessoadas, já no levantar d’asas, as duas senhoras entabularam uma charla. O mote: a esculhambação do País e a “culpa do Bolsa Família”, agravada com o cartão para compra de móveis pelo programa Minha Casa, Minha Vida. A senhora do corredor foi atropelada todo o tempo pela senhora ao lado, que tinha feito chapinha no cabelo e usava calça-oncinha.

A do “eslaque” oncinha logo disse: assim não dá, essa gente ganha dinheiro sem trabalho. E a outra concordou. E dedicaram mais alguns minutos para falar mal dos pobres.

Na sequência, começaram a falar de si. Uma não escutava bem o que a outra dizia, porque, ávidas, queriam dizer quais os países que conheciam. Ao que ouvi, a senhora da calça-oncinha, dona de uma loja de bijouterias (parte do produto é chibo de Maiame), já andou pelos quatro cantos do mundo. Muitas das viagens foram de excursão.

Fiquei sabendo de tudo. Até da última viagem a Las Vegas. Soube da idade dos filhos e até de uma passagem aérea que ela – a mulher da calça-oncinha – comprara em dez parcelas iguais e sem juros para um filho. E do chibo de Maiame. Ela traz muita mercadoria de lá. Já a outra, um pouco mais discreta, conhece menos o mundo; mas esteve 30 dias em Londres. Ma-ra-vi- lho-sa a cidade, disse. Ela traz menos chibo que a do eslaque oncinha.

Depois de ouvir isso tudo durante mais de uma hora, “pouso autorizado”. Neste momento, a senhora do corredor disse para a da calça-oncinha: meu nome é Alzira (na verdade, o nome era outro – não posso dizer o nome verdadeiro); e a outra respondeu: e o meu é Flora. Muito prazer.

Fiquei pensando: que coisa, não? Contaram, uma para outra, todos os detalhes de viagens, filhos, cardápios, comportamento de maridos (sim, isso entrou na pauta) e não se conheciam. E eu fiquei sabendo de tudo. E os passageiros, alrededor, também.

Exatamente por isso é que os psicanalistas e psiquiatras tem tantos clientes. A humanidade não vai bem. Além disso, fiquei a pensar, cá com meus botões: por que falar mal do Bolsa Família e dos cartões para móveis se uma delas fazia enormes chibos from Maiame, passando a perna na Receita Federal?

Pois é. O inferno sempre são os outros. Alzira e Flora: “meus tipos inesquecíveis de viagem”. Desci do aeroplano e, como já fizera o Papa, beijei o chão de São Paulo. Enfim, chegara.

Numa palavra: sou observador do modo como se comportam as pessoas nos voos. Já sei até o que a pessoa do corredor vai fazer para entabolar conversa com a pessoa que está na janela. Ou a que está no meio dos dois. Este sofre com o cruzamento de linhas ou tem de aderir. E a conversa a três vira uma zona. Fico sabendo dos costumes, dos gostos e dos lugares que frequentam. Das ilegalidades que cometem. Dos preconceitos. Sim, passageiros de aviões são “naturalmente” (vejam bem as aspas) preconceituosos com os que não podem viajar… E também são preconceituosos com os que viajam, desde que os preconceituosos vejam neles “desviantes”, gente “que devia saber o seu lugar e não sabe”.

Dia desses viajei, de Brasilia ao Rio de Janeiro, com duas coachings e, do outro lado do corredor, com Merval Pereira. O que as coachings falaram, nem queiram saber. Muita trampa fiscal na conversa. E muito preconceito. Só elas é que ganham dinheiro honestamente. E a parte em que demonizam a política? É a melhor parte. E sempre sobra para o Bolsa Família. E as duas coachings falavam alto. Sei até a marca do Champagne que serviriam na festa do dia seguinte para a empresa estrangeira (parece que era a Siemens). E quanto cobrariam a mais. Faltou só o Merval se meter no papo, para contar os últimos vazamentos da Lava-Jato, aos quais, por óbvio, ele e Gerson Camaroti tiveram acesso privilegiado. Ainda bem (ou ainda mal) que ele dormia, roncando. De boca aberta. Horrível.

Alzira, Clara, as duas Coachings (uma delas se chamava Andrea, a outra, não lembro – putz, devia ter anotado), Merval, o Bolsa Família, as compras de Maiame, os maridos de Alzina e Clara, o bofe que Andrea pegou na última recepção (parece que eram executivos do Citi)… Tudo são privacidades jogadas ao ar. Bom, de fato, ao ar. Tudo isso em voos.

 

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