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COP30: um autoengano coletivo ou o despertar da verdade climática?

(Foto: Rafa Neddermeyer/COP30 Brasil Amazônia/PR)

Belém recebeu a conferência que muitos já chamam de “a COP da verdade”. O evento foi cercado de expectativas e críticas: problemas de infraestrutura, falhas pontuais na segurança e até tormentas tropicais que atrapalharam a logística deram munição aos detratores.

Mas reduzir a COP30 a esses episódios seria ignorar o que realmente aconteceu: pela primeira vez, o debate sobre o futuro climático deixou de ser restrito às salas de negociação e passou a ocupar as conversas cotidianas — em encontros de amigos, grupos de família, igrejas, ambientes de trabalho e até nas arquibancadas de futebol.

As críticas foram duras. Especialistas apontaram avanços pontuais, mas também a ausência de um roteiro claro para o fim dos combustíveis fósseis. Organizações como o Greenpeace afirmaram que o texto final “não trata a crise como crise”. Outros viram na conferência apenas mais uma rodada de promessas não cumpridas, reforçando a ideia de que as COPs seriam exercícios anuais de autoengano coletivo.

Houve até quem denunciasse erros éticos gritantes na forma como se discute a abolição dos fósseis, acusando governos de proteger interesses econômicos em detrimento da sobrevivência planetária.

No entanto, é justamente nesse choque de narrativas que reside o sucesso da COP30. O Pacote de Belém, com 29 decisões, ampliou o número de compromissos nacionais (NDCs) e lançou o Acelerador Global de Implementação. Ainda que não tenha produzido o “mapa do caminho” definitivo para o abandono dos fósseis, abriu espaço para que mais de oitenta países se posicionassem em favor da transição energética. O Brasil, ao sediar o encontro, consolidou-se como potência verde mundial, colocando a Amazônia no centro da geopolítica climática.

Esse protagonismo ocorre em um cenário de nova ordem mundial. A guerra comercial e a tensão de uma nova guerra fria enfraqueceram o peso da Europa e dos Estados Unidos, enquanto China, e na carona o Brasil e Índia emergem como polos decisivos. A COP30 refletiu esse rearranjo: não há mais hegemonia única, mas uma disputa de narrativas e interesses que torna qualquer acordo mais delicado. E é nesse contexto que o Brasil aparece como ponte entre mundos — capaz de dialogar com o Norte Global e, ao mesmo tempo, liderar o Sul Global.

Dizer que houve “descumprimento do Acordo de Paris” é uma leitura apressada. O que se viu foi uma avalanche de desinformação e opiniões pobres, muitas vezes ideológicas ou movidas pelo medo da mudança. A essência do acordo permanece viva, mas precisa ser constantemente defendida contra a erosão da confiança pública.

O saldo da COP30 não pode ser medido por manchetes ou opiniões avulsas. O verdadeiro teste será a implementação dos documentos e negociações nos próximos anos. A humanidade vive um momento decisivo: escolher entre ampliar impérios econômicos ou salvar o planeta. Os donos do poder precisam ouvir seus povos, não apenas movimentar engrenagens de dominação e colonialismo.

O sucesso da COP30 está em ter escancarado o debate. Ao transformar a crise climática em tema popular e ao colocar o Brasil no centro da discussão, a conferência mostrou que não há mais como fugir da escolha: ou seguimos presos ao rentismo fóssil, ou inauguramos uma era de cooperação global capaz de garantir futuro às próximas gerações.

* Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética

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