Uma das primeiras memórias de Juan (nome fictício) é de sua casa em chamas, quando ele tinha quatro anos. Natural da Guatemala, como contou a um juiz de imigração, ele e sua família foram desde cedo perseguidos por membros de gangues urbanas. Eles se recusavam a pagar a taxa mensal, “la renta”, que o grupo criminoso cobra da população.
Depois de mudar de bairro três vezes, ver o tio morto, ser ameaçado sob a mira de armas e deixar de ir à escola por medo de retaliações, Juan resolveu fugir para os Estados Unidsos.
Ele chegou à fronteira sozinho em 2014, aos 14 anos, assim como outros milhares de adolescentes – um grupo que soma pelo menos 200 mil crianças nos últimos cinco anos e cujo fluxo voltou a crescer nos últimos meses.
A maioria delas foge do aliciamento por gangues e de ameaças de morte em países do chamado Triângulo do Norte (El Salvador, Honduras e Guatemala), que tem uma das maiores taxas de homicídio do mundo. Muitas têm pais que vivem nos Estados Unidos, fugidos antes. Por isso, vão sozinhas à fronteira.
Elas são bem mais novas que os “dreamers” (sonhadores), jovens imigrantes levados pelos pais aos EUA ainda crianças, no início da década. Para esse grupo, bandeira dos democratas, Donald Trump acenou com a cidadania.
Mas, para as crianças desacompanhadas, que a ONU afirma serem parte de uma crise humanitária, o republicano fechou a porta. Elas não têm status legal no país, não se qualificam como refugiadas, quase nunca conseguem asilo – para piorar, segundo Trump, impulsionam a violência em solo americano.
