Durante a campanha eleitoral de 2022, o então candidato do PT à Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva, afirmou, mais de uma vez, que nunca “indicou um amigo” para o Supremo Tribunal Federal (STF) durante seus dois primeiros mandatos. Tratava-se de uma crítica ao presidente Jair Bolsonaro, que indicou o ex-ministro da Justiça André Mendonça para uma das vagas.
No entanto, Lula, agora presidente pela terceira vez, terá de enfrentar a questão ética que imputou ao seu antecessor, pois seu advogado pessoal, Cristiano Zanin, desponta como um potencial candidato ao Supremo. É o nome mais citado nos bastidores de Brasília.
Lula tem restringido ao máximo as conversas sobre o substituto do ministro Ricardo Lewandowski, que faz 75 anos em maio deste ano – além dele, a presidente da Corte, Rosa Weber, também vai deixar a toga neste ano, em outubro. Segundo aliados próximos do petista, Zanin só não será contemplado com uma destas vagas caso recuse a oferta, assim como fez no passado o ex-deputado Sigmaringa Seixas – amigo de Lula e importante conselheiro do presidente para a escolha de ministros, morto em 2018. A atuação na Operação Lava-Jato e a derrubada das decisões de Sérgio Moro, segundo relatos, credenciaram o advogado ao círculo mais restrito do presidente.
Durante as eleições, Zanin atuou como coordenador jurídico da campanha e foi um articulador de encontros de Lula em sua residência. Reuniu o petista com os ex-governadores de Goiás Marconi Perillo (PSDB) e José Eliton (PSB) – ambos também são clientes de Zanin. Também foi anfitrião de um encontro com o economista e professor da Universidade de Columbia Jeffrey Sachs.
Assim que as eleições terminaram, Zanin foi nomeado na transição como o responsável pela elaboração de um relatório sobre a área de Cooperação Jurídica Internacional. O documento sugere, por exemplo, a derrubada de uma portaria conjunta da Advocacia-Geral da União (AGU), da Procuradoria-Geral da República (PGR) e do ex-ministro Márcio Thomaz Bastos, editada em 2005, no governo Lula, que permite ao Ministério Público Federal uma cooperação “informal” com órgãos estrangeiros. Questionamentos sobre este procedimento para cooperações internacionais com o fim de obter provas foram levantados diversas vezes por Zanin e outros advogados durante a Lava Jato.
Em meio à transição, ainda no fim de 2022, Lula chegou a perguntar a Zanin se gostaria de integrar o governo. Ao declinar a proposta, o advogado disse ao petista que permaneceria sempre atuando no Sistema de Justiça – o que pode envolver desde a continuidade na advocacia ou mesmo a ida para uma vaga em tribunal.
Após essa recusa, Zanin permanece em seu escritório, que, há meses, é sediado em uma casa de dois andares nos Jardins, em São Paulo. Estaria submerso até agora se não fosse pelo preço de ter advogado na Lava Jato. Diversas vezes, Zanin foi abordado em locais públicos e chamado de “advogado do ladrão”, entre outras provocações. Recentemente, foi vítima de uma ameaça no aeroporto Juscelino Kubitschek, em Brasília.
Enquanto escovava os dentes, foi abordado por um homem que lhe chamou de “safado”, “corrupto”, e “bandido”; “Vontade de meter a mão na orelha de um cara desse”, afirma o homem. “Tinha que tomar um pau de todo mundo que está andando na rua.” Tudo foi filmado pelo próprio agressor. A OAB Nacional procurou Zanin para representá-lo criminalmente, com o fim de punir o autor da ameaça.
Currículo
Aos 47 anos, Zanin nasceu em Piracicaba, no interior de São Paulo. Formou-se em Direito pela PUC. Iniciou a carreira a convite do professor Eduardo Arruda Alvim para integrar o escritório do pai, o falecido desembargador José Manoel de Arruda Alvim Neto. Começou a carreira de advogado na área de telecomunicações, e em casos relativos a planos econômicos no fim dos anos 1990.
Em um destes casos, fez parceria com a advogada Valeska Teixeira, que trabalhava para uma das grandes bancas de advocacia de São Paulo. Começaram a namorar no início dos anos 2000, quando Zanin se tornou sócio de Valeska e de seu pai, o advogado Roberto Teixeira. Antigo compadre de Lula, Roberto Teixeira foi, por muitos anos, um influente aliado do petista. Zanin e Valeska são casados e têm três filhos.
Foi em um sítio de Teixeira que o presidente morou nos anos 1980 sem pagar aluguel. O filho de Lula, Luis Cláudio, que é afilhado do advogado, também morou de graça em um apartamento da Mitho Participações, empresa que tem Teixeira como sócio. No escritório do compadre de Lula, por exemplo, foi lavrada a compra do sítio de Atibaia, em nome de Fernando Bittar e Jonas Suassuna. O imóvel foi alvo da Lava-Jato e Lula chegou a ser condenado nesse caso – decisão que, mais tarde, seria anulada.
