A ex-presidente da Argentina, Cristina Kirchner, comparou na terça-feira (18) sua situação judicial com a do ex-presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, que está preso desde abril após ser condenado em segunda instância pelo TRF-4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região), no âmbito da Operação Lava-Jato.
A ex-chefe de Estado compareceu a uma sessão de julgamento no processo em que é acusada de lavagem de dinheiro em um esquema de corrupção envolvendo o empresário Lázaro Baez, um dos principais beneficiados por obras públicas durante os mandatos da atual senadora (2007-2015). Na última segunda-feira (17), ela teve a prisão preventiva pedida pelo juiz Claudio Bonadío por ser considerada a “chefe” de uma “associação ilícita” que pedia subornos a empresários em troca de concessões de obras públicas, no caso conhecido como “cadernos da corrupção”.
O caso explodiu no começo de agosto a partir das minuciosas anotações de Oscar Centeno, chofer de do subsecretário de Coordenação de Obras Públicas, Roberto Baratta. Durante 10 anos, Centeno anotou em oito cadernos escolares centenas de viagens com malas carregadas de dinheiro, produto de supostas propinas que construtoras pagavam em troca de contratos com o Estado. O caso não parou de crescer até se transformar em um escândalo sem precedentes que, como a Lava-Jato, envolve ex-funcionários, empresários poderosos e até juízes.
Na sessão, a ex-presidente entregou um comunicado ao juiz Sebastán Casanello, responsável pela condução do processo, que a acusa de expatriar de cerca de US$ 60 milhões entre 2010 e 2013 para, depois, trazer o dinheiro de volta ao país de forma lícita. Há dez dias, foram feitas escavações em uma propriedade de Báez que tinham como objetivo encontrar o dinheiro e terminaram sem sucesso.
“Podem escavar toda a Patagônia argentina, ou onde quer que queiram, mas nunca vão encontrar nada que me incrimine, porque jamais me apropriei de dinheiro público algum”, escreveu Kirchner, que, por ser uma parlamentar, só pode ser presa se perder o foro privilegiado, o que é descartado pela bancada peronista no Congresso. Kirchner também responde a outros sete processos judiciais.
Caráter regional na América Latina
A senadora ainda disse que “lamentavelmente, este fenômeno que vivemos tem um caráter regional na América Latina e foi qualificado pelo professor Luigi Ferrajoli, um dos expoentes mundiais do juspositivismo crítico, como uma agressão judicial à democracia. Neste sentido, as reflexões que formula o professor ao analisar a situação do Brasil com relação ao processo do presidente Lula, constituem uma descrição, mudando os nomes próprios, quase perfeita do que vem ocorrendo na Argentina”, afirmou, citando a “total falta de imparcialidade dos magistrados” e a “campanha da imprensa” como principais semelhanças entre os dois casos.
