Apresentação do Coral da APAC marca aniversário de um dos prédios históricos mais importantes da capital gaúcha e reforça a reflexão sobre dignidade humana e ressocialização
Ao completar 138 anos no próximo dia 28 de outubro, a Cúria Metropolitana de Porto Alegre celebrará sua trajetória como uma das organizações mais tradicionais da capital gaúcha. Sediada na rua Espírito Santo, 95, no Centro Histórico, marcará a data com uma apresentação do Coral da Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (APAC), em uma programação que reúne patrimônio, cultura e compromisso social.
Atual sede administrativa da Arquidiocese de Porto Alegre, criada em 1910, a Cúria ocupa um edifício cuja história acompanha parte da formação da Igreja Católica no Rio Grande do Sul. O prédio foi concebido originalmente para abrigar o Seminário Episcopal, considerado o primeiro centro estruturado para a formação do clero na então Província de São Pedro do Rio Grande do Sul.
A pedra fundamental foi lançada em 1865 por determinação de Dom Sebastião Dias Laranjeira. O projeto arquitetônico foi elaborado pelo francês Jules Villain e, após sua morte, as obras foram concluídas pelo alemão Johann Grünewald, responsável por incorporar elementos neogóticos à construção. Finalizado em 1888, o edifício tornou-se uma referência do patrimônio arquitetônico do Centro Histórico de Porto Alegre.
Ao longo das décadas, a Cúria consolidou-se como centro de decisões pastorais e administrativas da Arquidiocese e passou a desempenhar papel relevante na preservação documental da história gaúcha. Seu Arquivo Histórico reúne registros de batismos desde 1747, além de documentos que ajudam a reconstruir a trajetória de famílias e comunidades que participaram da formação social do Rio Grande do Sul.
A importância da organização também se reflete no valor cultural do imóvel. Em 1977, o prédio foi incluído no Inventário dos Bens Imóveis de Valor Histórico e Cultural e de Expressiva Tradição de Porto Alegre, consolidando sua condição de patrimônio da cidade.
Nos últimos anos, a Arquidiocese intensificou os esforços para preservar o conjunto arquitetônico. A revitalização da fachada, concluída recentemente, integra um processo mais amplo de conservação destinado a proteger o imóvel e valorizar sua presença na paisagem urbana da capital.
É nesse contexto que a escolha do Coral da APAC adquire significado especial. Formado por pessoas privadas de liberdade, o grupo representa uma iniciativa voltada à reintegração social por meio da música. A atividade busca estimular a convivência, a disciplina, a autoestima e a construção de novas perspectivas de vida.
A APAC desenvolve uma metodologia baseada no trabalho, na espiritualidade e na corresponsabilidade, propondo alternativas para a recuperação de pessoas em cumprimento de pena. Reconhecida nacionalmente, tornou-se referência em iniciativas voltadas à ressocialização e à valorização da pessoa humana.
A aproximação entre a Arquidiocese e a associação ganhou visibilidade neste ano, quando o arcebispo de Porto Alegre, Dom Jaime Spengler, visitou a unidade da APAC na capital. Na ocasião, ressaltou a importância de reconhecer a dignidade humana e acreditar na capacidade de transformação das pessoas. “A pessoa é o que nós temos de mais importante”, afirmou.
Ao reunir a história de uma instituição centenária e a apresentação de um grupo formado por pessoas em processo de reconstrução de suas trajetórias, a celebração dos 138 anos da Cúria Metropolitana estabelece uma conexão entre memória e futuro. Guardiã de parte significativa da história religiosa e documental do Rio Grande do Sul, a instituição utiliza seu aniversário para reforçar uma mensagem que atravessa gerações: a preservação do patrimônio ganha significado ainda maior quando associada à valorização da pessoa humana e à criação de oportunidades de reintegração social.
