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Declínio dos Estados Unidos como potência no Afeganistão leva aliados do Oriente Médio a temerem avanço de inimigos

Pela primeira vez desde 2001, não há tropas americanas no país. (Foto: Reprodução)

A situação do Afeganistão levou o Oriente Médio a constatar que a progressiva saída de cena dos Estados Unidos como ator hegemônico na região coincide com seu declínio como superpotência. Israel e os países árabes aliados de Washington observam com inquietação como o poder de dissuasão militar derivado dessa associação estratégica pode desaparecer depois da súbita queda do Governo de Cabul, dias depois da retirada das forças norte-americanas do Afeganistão.

Especialistas e analistas de segurança temem que o retorno do Talibã ao poder no país centro-asiático acabe dando asas a grupos radicais islâmicos —como no caso do Hezbollah, no Líbano, em vias de se tornar um Estado falido— e favoreça um ressurgimento do jihadismo.

“Os aliados no Oriente Médio agora terão dificuldades para confiar nas garantias de segurança oferecidas por Washington”, diz o ex-general israelense Yossi Kuperwasser, que foi chefe do serviço investigativo da inteligência militar, em um encontro virtual com jornalistas estrangeiros.

“A principal lição a ser aprendida agora é que eles devem se concentrar em contar com capacidade própria de defesa contra ameaças como a do Irã”, destaca o hoje pesquisador do Centro de Assuntos Públicos de Jerusalém.

Também o Irã se viu sacudido pela reinstauração de um emirado fundamentalista sunita em sua fronteira oriental, por onde pode chegar uma avalanche de refugiados. O novo presidente iraniano, o ultraconservador Ebrahim Raisi, disse em declarações televisivas citadas pela Reuters que “a derrota dos EUA e sua retirada podem se transformar em uma oportunidade para restaurar a segurança e a paz no Afeganistão”.

O Irã mantém uma atitude ambivalente em relação ao Talibã, grupo ao qual rejeita por ter marginalizado a minoria xiita do Afeganistão, mas com o qual estendeu pontes diplomáticas mais recentemente.

“A era de intervenção e presença dos Estados Unidos no Oriente Médio está chegando ao fim”, prognostica no jornal Haaretz o analista de inteligência Yossi Melman, recordando que sob as administrações dos três últimos —Barack Obama, Donald Trump e Joe Biden— os EUA vêm se retirando de uma região que só rendeu “gastos enormes e caixões”. Discretamente, o Bahrein já manteve uma rodada de contatos à frente do Conselho de Cooperação do Golfo para analisar a chegada ao poder dos insurgentes afegãos e, sobretudo, a acelerada saída de Washington.

Perante a crescente ausência de forças dos EUA no Oriente Médio, a Rússia ocupou parte do vácuo. Em 2015, sua decidida intervenção militar em favor do regime da Síria salvou o presidente Bashar al Assad da derrota, permitindo que recuperasse o controle da maior parte do país quatro anos depois. Moscou garantiu assim o uso indefinido de suas bases aeronavais na costa síria.

Em escala regional, Israel se tornou a principal potência militar, a cavalo entre o Mediterrâneo e o golfo Pérsico, com aliados com os quais mantém relações normalizadas, como o Egito e os Emirados Árabes Unidos, e outros que estreitam contatos à sombra, como a Arábia Saudita. “Israel terá que oferecer assistência de segurança aos países sunitas moderados”, antecipa Kuperwasser sobre o novo cenário de segurança regional que se abre depois da queda do Governo afegão, que parece ter fixado os limites para os EUA no Oriente Médio e Ásia Central.

O temor de que a Al Qaeda ressurja em uma reedição da sua aliança o Talibã também causa inquietação no Oriente Médio. O colunista Ben-Dron Yemini adverte, nas páginas do Yedioth Ahronoth, que “a marcha vitoriosa dos insurgentes pelas ruas de Cabul foi como uma injeção de reforço para os jihadistas”. O movimento islâmico palestino Hamas, que governa a Faixa de Gaza, apressou-se em felicitar o Talibã por sua vitória.

Uma década depois da eclosão da Primavera Árabe, o Oriente Médio continua desestabilizado por conflitos intermináveis. A pandemia e a crise econômica causada pelos confinamentos deixaram muitos de seus habitantes à beira do desespero, o que conduz à radicalização. Há países que mergulham no caos, como o Líbano, sufocado pela miséria e o desgoverno depois da explosão que arrasou o porto de Beirute há um ano.

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