Em maio de 2017, quando vendeu 49,9% da XP Investimentos para o Itaú Unibanco por R$ 6,3 bilhões, o fundador Guilherme Benchimol queria evitar os desafios de uma empresa de capital aberto, onde as oscilações do mercado têm efeito profundo na gestão. Passados dois anos e meio, a empresa agora tem as suas ações negociadas na bolsa de valores dos Estados Unidos e está avaliada pelo equivalente a cerca de R$ 78 bilhões.
Hoje com 43 anos, o carioca formado em Economia deixou o Rio de Janeiro aos 24 anos para criar o seu próprio negócio em Porto Alegre, após ser demitido da plataforma de investimentos Investshop, que sucumbiu com o estouro da bolha da internet, no início desta década. “Workaholic”, Benchimol se tornou multimilionário cedo e praticamente não tem vida social – nos fins de semana, costuma discutir assuntos de trabalho com clientes e sócios ao redor da piscina.
Agora, o jovem que se acostumou a ditar o ritmo de seus negócios terá que enfrentar o desafio de dar satisfação diária aos seus milhares de acionistas. Para essa tarefa, precisará contar cada vez mais com sua capacidade de convencimento, que, segundo uma pessoa próxima ao empresário, “é sua principal habilidade”.
Apesar do estilo agressivo (no sentido figurado) quando o assunto é trabalho, quem convive com ele o descreve como uma pessoa agradável, simples e educada. De acordo com antigos sócios e funcionários, ele está sempre disposto a ouvir uma ideia e conversar, embora tente fazer com que seus argumentos vençam. É convincente e motivador.
Em sua trajetória de sucesso, Benchimol também contou com a falta de capacidade dos concorrentes para enxergar o potencial de uma plataforma de investimentos que vendia produtos de terceiros. “Ele trouxe um modelo de fora, copiado da gigante norte-americana Charles Schwab, e a concorrência errou ao não acreditar nesse modelo”, relata um antigo sócio.
Antes de concluir o acordo, a ideia de Benchimol era abrir o capital da companhia. Descrito como focado e obstinado, assim como a maioria dos empreendedores, Benchimol é conhecido por colocar seus negócios antes de tudo. “Talvez venha antes até da família”, diz uma pessoa que trabalhou com ele. O empreendedor também não mistura negócios com sentimentos, acrescenta outro ex-sócio.
Em 2010, por exemplo, ficou conhecida no mercado a história de que a mulher de Benchimol, Ana Clara, teria sua participação na sociedade reduzida por não alcançar suas metas logo após voltar de licença-maternidade. Ela havia sido uma das primeiras funcionárias da XP, ainda em Porto Alegre, tendo começado como estagiária e sido logo promovida a sócia. Ana Clara acabou desistindo de continuar na companhia. Eles continuam casados.
Entrega
A dedicação aos negócios é reconhecida até pelos seus desafetos. Nos bastidores, sabe-se que Benchimol não evita entrar em rota de colisão com os sócios – muitos deixaram a companhia para montar seus próprios negócios. Foi o caso de Marcelo Maisonnave, sócio-fundador da XP, e também do executivo Roberto Lee, um dos fundadores da Clear, corretora comprada pela XP em 2014. Procurados, Maisonnave e Lee não quiseram falar.
Benchimol não costuma temer riscos. Coloca metas absurdas e, com certa frequência, consegue batê-las. Aqueles que não acompanham o ritmo ficam rapidamente para trás. Também é frequente que se encante e desencante com os talentos de um novo funcionário ou de um sócio rapidamente. “Qualquer escorregada, a pessoa é trocada: ou sai ou tem sua participação reduzida. Mas, se consegue surpreender positivamente, pode voltar muito rápido”, conta uma pessoa que trabalhou por dez anos na empresa.
Ele tem no trio do 3G Capital – os bilionários Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira – sua fonte de inspiração. Os três são sócios da maior cervejaria do mundo – a AB InBev, que detém marcas como Skol e Brahma e Budweiser. Em julho deste ano, subiu ao palco do XP Expert, diante de milhares de pessoas, ao lado de Lemann. Segundo a própria empresa, o XP Expert é o maior evento de investimentos do mundo, tendo reunido, na edição de 2019, 30 mil pessoas.
Ali, ele não deu uma palestra, mas participou de uma espécie de “talk-show”. Falar em público não é seu forte, mas tentou descontrair: disse que Lemann era uma de suas três grandes referências, ao lado de seu pai e de Ayrton Senna, e jogou tênis com o empresário do 3G. Não conseguiu, porém, esconder o nervosismo: gaguejou um pouco e não se mostrou confortável.
(Marcello Campos)
