A democracia nunca foi um sistema perfeito. Reside justamente aí uma de suas maiores virtudes. Ao contrário das utopias políticas, muitas de caráter autoritário, que prometem soluções definitivas para todos os problemas da sociedade, a democracia reconhece a imperfeição humana e cria mecanismos para corrigi-la.
Nos últimos anos, assistimos ao ressurgimento de uma antiga tentação de crer que regimes autoritários seriam mais eficientes do que democracias. Diante da lentidão dos parlamentos, dos conflitos partidários, da polarização política e das dificuldades de governança, muitos passaram a olhar com admiração para países onde decisões são tomadas rapidamente, sem debates intermináveis, sem oposição organizada e sem as limitações impostas pelos freios e contrapesos institucionais.
A tese parece sedutora. Afinal, quem não gostaria de viver em um sistema capaz de decidir e agir com rapidez? O problema é que a história e os dados mostram que essa promessa de eficiência costuma ser uma ilusão.
Os cientistas políticos Jørgen Møller e Svend-Erik Skaaning, em estudo recentemente destacado por Francis Fukuyama, desmontam aquilo que chamam de “mito da eficiência autoritária”. A análise comparativa revela que, no longo prazo, as democracias apresentam desempenho superior em áreas fundamentais para o desenvolvimento humano.
No campo militar, por exemplo, as democracias venceram a ampla maioria dos conflitos desde o início do século XIX. Isso ocorre porque governos legitimados pelo voto conseguem mobilizar apoio social de forma mais consistente e alianças entre países democráticos tendem a ser mais estáveis e duradouras.
Na economia, a vantagem democrática é ainda mais relevante. Regimes autoritários podem, de fato, acelerar processos de industrialização e alcançar ganhos rápidos de produtividade. Contudo, frequentemente encontram dificuldades quando precisam avançar para uma economia baseada em inovação, criatividade e conhecimento. A inovação floresce onde existe liberdade para questionar, experimentar e discordar. Não por acaso, os maiores centros globais de pesquisa, ciência e empreendedorismo surgiram em sociedades abertas.
Mas um dos argumentos mais poderosos está na capacidade de evitar grandes tragédias. A história do século XX oferece exemplos dolorosos. A coletivização forçada na União Soviética e o Grande Salto Adiante na China provocaram fome, sofrimento e milhões de mortes. Não foram apenas erros econômicos. Foram erros agravados pela ausência de mecanismos institucionais capazes de interromper decisões equivocadas.
É verdade que democracias erram. Erram muito. Produzem governos ruins, políticas equivocadas e lideranças despreparadas. Mas possuem algo que os regimes autoritários raramente oferecem: mecanismos de autocorreção. Imprensa livre, Judiciário independente, eleições periódicas, oposição organizada e liberdade de expressão funcionam como sensores que detectam falhas antes que elas se transformem em catástrofes. Melhor uma democracia que falhe do que uma ditadura que funcione.
O processo democrático é frequentemente lento, barulhento e frustrante. Contudo, é exatamente essa aparente desordem que permite à democracia aprender com os próprios erros.
A discussão ganha ainda mais relevância em um mundo marcado por crises sanitárias, desafios climáticos, transformações tecnológicas e tensões geopolíticas. Problemas complexos exigem informação de qualidade, transparência e debate público. Sistemas fechados podem parecer eficientes durante algum tempo, mas tendem a perder qualidade quando deixam de ouvir críticas e passam a acreditar na própria infalibilidade.
Por isso, a defesa da democracia vai muito além de um compromisso moral com a liberdade, os direitos humanos e a dignidade da pessoa. Trata-se também de uma escolha pragmática. A evidência histórica sugere que sociedades livres não apenas protegem melhor seus cidadãos, mas também constroem instituições mais resilientes, economias mais inovadoras e mecanismos mais eficazes para enfrentar crises.
* Edson Bündchen
