Após conquistarem ambas as casas do Congresso dos Estados Unidos, os democratas voltarão seus novos poderes investigativos para os negócios da família Trump, transformando o que classificam como corrupção em um pilar central da campanha para a Casa Branca em 2028.
Os democratas assumiram o controle tanto do Senado quanto da Câmara dos Representantes nas Eleições de Meio de Mandato realizadas na terça-feira (3) — um pleito no qual dezenas de milhões de eleitores expressaram sua rejeição ao presidente Donald Trump.
Eles não perderam tempo em enviar um aviso aos republicanos. “Contratem advogados”, publicou na rede social X, na noite de terça-feira, o deputado federal Robert Garcia, cotado para presidir o Comitê de Supervisão da Câmara.
“Intimações”, escreveu, uma hora depois, o senador Ron Wyden, que deve liderar o Comitê de Finanças do Senado. “Preparem suas agendas”, afirmou a deputada federal Delia Ramirez, em uma publicação direcionada a diversos integrantes da administração Trump.
Na quarta-feira (4), líderes democratas de comitês começaram a traçar uma agenda de fiscalização que tem como alvo tanto a administração Trump quanto grandes corporações.
Wyden declarou que pretende examinar minuciosamente os acordos firmados entre a administração Trump e empresas farmacêuticas a respeito da precificação de medicamentos. A administração Trump negou qualquer irregularidade e, na quarta-feira, reagiu às investigações que se avizinham.
“Se os democratas optarem por conduzir investigações farsescas e promover políticas de esquerda radical, estarão escolhendo trabalhar contra o povo americano”, afirmou a porta-voz da Casa Branca, Lauren Bis.
Outro representante da Casa Branca, que falou sob condição de anonimato, comentou as declarações dos democratas: “É bom que eles se lembrem de que ainda controlamos o governo federal e todos os seus poderes”, disse a fonte.
Investigações podem dominar o cenário
O CEO do setor de tecnologia e grande doador do Partido Republicano, Elon Musk, os filhos de Trump e uma série de outros doadores e prestadores de serviço ligados aos republicanos provavelmente serão alvo de investigações que podem dominar a segunda metade do mandato de Trump, segundo entrevistas da agência de notícias Reuters com cerca de uma dúzia de advogados, membros do Congresso, assessores parlamentares e consultores políticos.
Um representante de Musk não respondeu a um pedido de comentário. Um representante de Donald Trump Jr., um dos filhos do presidente, recusou-se a comentar, enquanto um representante de Eric Trump, outro filho, não respondeu a um pedido de comentário.
Os democratas optaram por realizar investigações em vez de tentar o impeachment de Trump imediatamente, informou a Reuters anteriormente. “Esperamos um grande volume de investigações agressivas e abrangentes, que terão como alvo tanto a administração quanto o setor privado”, afirmou a advogada Rachel Cotton, especialista em fiscalização parlamentar do escritório de advocacia Arnold & Porter.
Analistas afirmam que os democratas precisarão encontrar um equilíbrio delicado entre tentar expor o que chamam de corrupção sem precedentes sob Trump e abordar as preocupações dos eleitores com o aumento dos preços de bens de consumo e da gasolina.
O sucesso ou fracasso dos democratas terá implicações significativas para a disputa — ainda totalmente em aberto — pela sucessão de Trump na eleição presidencial de 2028.
“Os democratas estarão menos preocupados com Trump em si e mais focados em associar a corrupção a toda a administração e, por extensão, a todo o Partido Republicano”, disse Sarah Longwell, ex-estrategista republicana e crítica de longa data de Trump, acrescentando que um dos objetivos será inviabilizar a trajetória política de autoridades que serviram na administração do presidente.
Longwell observou que os democratas também poderiam obter vantagens políticas ao investigar como os republicanos lidaram com informações relacionadas ao falecido criminoso sexual Jeffrey Epstein. “Mesmo que não passe de teatro político, sempre que o assunto Epstein vem à tona, a popularidade de Trump sofre um impacto negativo”, afirmou ela.
Democratas correm o risco de “exagerar na dose”
No entanto, os democratas correm o risco de exagerar na dose, afirmou o consultor republicano Ron Bonjean. “Os eleitores estão mais preocupados com a acessibilidade financeira”, disse Bonjean. “Se o desejo de vingança que os democratas buscam se sobrepuser à sua agenda legislativa, é provável que a maioria legislativa deles dure muito pouco.”
Cerca de 48% dos eleitores registrados, em uma pesquisa Reuters/Ipsos realizada em âmbito nacional entre a última quinta-feira e segunda-feira, apontaram o custo de vida como a principal questão que define seu voto.
Mas os eleitores também expressaram preocupação com o enriquecimento pessoal de Trump, em meio a uma série de negociações de sua família envolvendo criptomoedas e o setor imobiliário.
