A vitória do presidente Lula (PT) sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL) nesse domingo (25) abre caminho para a reorganização da direita sob uma nova liderança, em meio à disputa pelo espólio do bolsonarismo.
O resultado, projetado pelo Datafolha às 20h46, foi confirmado pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) às 21h10.
Flávio conquistou quase 60 milhões de votos no segundo turno, impulsionado pelo sobrenome e pelo antipetismo, que segue como força política capaz de mobilizar o eleitorado. O senador havia surpreendido no primeiro turno, quando recebeu mais votos que Lula, e chegou a falar em mudar a Constituição.
O campo progressista, porém, reagiu com mobilização nas ruas e nas redes sociais, liderada pelo deputado federal André Janones, revertendo o cenário e garantindo a vitória do petista.
A votação de Flávio e o desempenho da bancada do PL indicam a continuidade da demanda por um candidato que reúna a oposição ao PT e represente valores associados ao bolsonarismo, como o conservadorismo familiar, a influência da fé na política e a primazia do indivíduo sobre a coletividade.
A questão é quem liderará esse campo. A reeleição de Lula afasta a possibilidade de indulto presidencial para Jair Bolsonaro (PL), condenado a 27 anos de prisão pela tentativa de golpe de 2022. O ex-presidente deve continuar preso e impedido de liderar seu projeto político, salvo eventual decisão do ministro do STF Kassio Nunes Marques em revisão criminal apresentada pela defesa.
Derrotado, Flávio perde força na disputa pela sucessão do pai. O senador também é investigado em inquérito do Supremo relacionado ao filme “Dark Horse”, que recebeu ao menos R$ 65 milhões de Daniel Vorcaro, do Banco Master. Além disso, a Polícia Federal pediu ao STF a abertura de investigação sobre suspeita de lavagem de dinheiro envolvendo seu amigo, o advogado Willer Tomaz, também investigado no caso das fraudes no INSS.
O ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL), autoexilado nos Estados Unidos, foi condenado pelo Supremo a quatro anos e dois meses de prisão por coação, sob acusação de tentar intimidar o Judiciário e impedir o julgamento da trama golpista. Em outubro, Alexandre de Moraes determinou o início do cumprimento da pena, tornando improvável seu retorno ao Brasil e uma eventual candidatura, diante da Lei da Ficha Limpa.
No clã Bolsonaro, resta a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL), que ensaiou construir uma trajetória política própria. Em junho, publicou um vídeo acusando Flávio de tê-la maltratado, expondo um conflito que ameaçou o desempenho do senador entre as mulheres. Embora tenham feito as pazes publicamente, Michelle não se engajou na campanha do enteado. Segundo aliados, ela ficou decepcionada com a escolha de Jair Bolsonaro, já que seu nome era cogitado para vice em uma chapa liderada pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), reeleito no primeiro turno.
A rejeição à família também favorece o surgimento de uma liderança externa. Na véspera do segundo turno, 45% dos eleitores afirmavam que não votariam em Flávio de jeito nenhum, segundo o Datafolha. Quando o senador anunciou sua candidatura, líderes do centrão e empresários demonstraram insatisfação e apontaram Tarcísio como alternativa.
Com o horizonte de 2030 aberto, o governador aparece entre os nomes cotados para liderar o campo conservador. A longo prazo, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL) também pode disputar esse espaço. Com grande alcance nas redes sociais, foi o deputado mais votado do país nas duas últimas eleições. Em 2026, recebeu 3,1 milhões de votos e ajudou a eleger aliados. Aos 30 anos, só poderá concorrer à Presidência em 2034, quando atingirá a idade mínima constitucional de 35 anos.
Outro fenômeno recorrente é o surgimento de candidatos de direita que se apresentam como outsiders, com discursos antissistema e ênfase no empreendedorismo e no esforço individual. Neste ciclo, Augusto Cury (Avante) representou essa tendência. Em 2024, o influenciador Pablo Marçal (PRTB) também ganhou projeção. Inelegível, tentou disputar a Presidência neste ano, mas, impedido pela Justiça Eleitoral, apoiou Flávio e chegou a ser cotado para um eventual Ministério da Prosperidade.
Marçal já havia protagonizado uma controvérsia na eleição municipal de 2024, ao divulgar um laudo falso para associar o adversário Guilherme Boulos (PSOL) ao uso de cocaína.
Por fim, o partido Missão, liderado por Renan Santos, busca se consolidar como alternativa à direita bolsonarista. Com 2% dos votos na disputa presidencial, Renan criticou Flávio no segundo turno e recusou declarar apoio a Lula, tentando posicionar seu grupo como uma terceira via no cenário pós-Bolsonaro. (Com informações da Folha de S.Paulo)
