Diplomatas foram taxativos ao classificar como “chantagem”, a decisão do governo dos Estados Unidos de revogar o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Viotti, anunciada nessa terça-feira (4). Segundo o Departamento de Estado, a medida é uma resposta à demora das autoridades brasileiras em conceder o aval diplomático para que Daniel Perez assuma a embaixada dos EUA no Brasil.
O governo americano afirmou ainda que a revogação do visto não significa a expulsão da diplomata. Segundo o governo americano, ela poderá permanecer nos Estados Unidos, mas sem um visto válido.
O órgão disse ainda que o visto poderá ser restabelecido caso o Brasil conceda o aval diplomático ao novo embaixador americano.
A indicação de Perez para ser embaixador dos EUA foi feita sem consulta formal prévia ao governo brasileiro, o que causou incômodo no Itamaraty.
Na formalidade diplomática, os governos costumam fazem uma consulta formal e confidencial sobre o nome que desejam indicar para comandar a embaixada – o chamado “agrément” – para só depois anunciarem o escolhido para ocupar o cargo de embaixador.
Daniel Perez, o escolhido pelo governo de Donald Trump para ser embaixador do país no Brasil é um parlamentar da Flórida. Ele é filho de cubanos e foi indicado pelo Departamento de Estado, responsável pelas relações exteriores dos Estados Unidos.
Seu nome foi enviado ao Senado norte-americano para aprovação. Há duas semanas, a indicação dele recebeu o aval de uma comissão do Senado dos EUA, mas ainda precisa ser aprovada pelo plenário da Casa.
Autoridades palacianas já indicaram que não vão rejeitar o nome de Daniel Perez para a embaixada americana no Brasil. O governo brasileiro reforçou apenas que não vai atropelar as etapas e que será feita “uma análise cuidadosa do histórico” do futuro embaixador.
Para a revogação do visto da embaixadora, o governo americano alega que as autoridades brasileiras sinalizaram que a autorização só deve ser dada após as eleições presidenciais de outubro.
Os EUA estão sem embaixador no Brasil desde janeiro de 2025, quando Donald Trump retornou à Casa Branca. Atualmente, a missão diplomática americana em Brasília é comandada por Kimberly Kelly, encarregada de negócios da embaixada.
O cancelamento do visto da embaixadora brasileira foi anunciado 10 dias após o Ministério de Relações Exteriores negar vistos a dois diplomatas do Departamento de Estado que viajariam ao Brasil: o secretário-assistente Riley M. Barnes e o subsecretário-assistente Samuel Samson.
Os dois foram citados em reportagem do jornal The Washington Post como responsáveis por uma estratégia para questionar a integridade e a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro.
Um porta-voz do Departamento de Estado negou que os funcionários pretendiam interferir nas eleições. Segundo os EUA, a visita tinha como objetivo discutir “integridade eleitoral, liberdade religiosa e liberdade de expressão” com autoridades brasileiras e representantes da sociedade civil.
Repúdio
O governo brasileiro repudiou a revogação do visto da embaixadora nos Estados Unidos, Maria Luiza Ribeiro Viotti. O país norte-americano justificou a medida pela demora do Brasil na resposta à concessão de aprovação diplomática do indicado do governo Trump a assumir a embaixada dos EUA no Brasil.
O governo brasileiro rebateu as alegações, afirmando serem falsas. “O Governo brasileiro repudia a decisão anunciada hoje pelo Departamento de Estado dos EUA de alterar o visto da embaixadora do Brasil em Washington. As duas justificativas apresentadas são falsas”.
Em nota divulgada pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República, o governo afirmou que os EUA feriram a Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas quando divulgaram o nome do seu indicado para assumir a embaixada no Brasil. Segundo o governo, o nome só poderia ser tornado público após a concessão da anuência do país anfitrião.
O pedido norte-americano, acrescenta a nota, ainda está em análise. “Não há regra na Convenção de Viena estipulando prazo para a concessão do agrément”, destacou.
