Um ano depois de entrar em vigor, a lei que restringe o uso de celulares nas escolas já faz parte da rotina da esmagadora maioria das unidades de ensino do País. Segundo pesquisa divulgada pelo Ministério da Educação (MEC), 92% das escolas, públicas e privadas, já adotaram as novas regras. Gestores de mais de oito mil escolas ouvidos relatam avanços na concentração dos alunos, na participação em sala de aula, na convivência e até na redução de conflitos ligados às redes sociais.
Em entrevista ao jornal A Tarde, a diretora de Apoio à Gestão Educacional da Secretaria de Educação Básica do MEC, Anita Stefani, afirma que os resultados do levantamento mostram não apenas que a lei pegou, mas também que ela não prejudicou o uso da tecnologia nas atividades pedagógicas. “A pesquisa mostra que esse uso excessivo de celular já era uma preocupação compartilhada na sociedade”, diz. Para a gestora, o problema não é a tecnologia em si, “mas como ela é usada”.
Ao longo da entrevista, Stefani também explica por que ainda é cedo para medir os efeitos da lei sobre a aprendizagem, comenta os impactos da restrição ao uso de celulares no bullying e no cyberbullying, defende uma participação mais ativa das famílias e fala sobre o papel da inteligência artificial e das tecnologias digitais na escola. Confira abaixo alguns trechos da entrevista.
– Um ano após a entrada em vigor da lei que restringe o uso de celulares nas escolas, o que mais chamou a atenção do MEC nos resultados dessa pesquisa? “O mais importante foi que a pesquisa mostrou que restrição ao uso dos celulares dos estudantes não reduziu o uso pedagógico da tecnologia nas escolas. No total, 86% das escolas relataram que as atividades pedagógicas com uso de tecnologia foram ou mantidas ou ampliadas mesmo após a lei. Além disso, 95% dos gestores viram impacto positivo da retirada do celular sem fins pedagógicos na concentração dos alunos. Por volta de 97% dos gestores falaram que aumentou a participação dos estudantes nas atividades pedagógicas da sala de aula. E 95% dos gestores disseram ter sentido melhora na socialização e dos alunos. Por fim, 86% dos gestores perceberam uma diminuição da ansiedade dos alunos e redução nos conflitos e agressões digitais em comparação a antes da lei.”
– Os dados mostram ampla adesão das escolas. Na sua avaliação, qual foi o principal fator para que essa política fosse implementada tão rapidamente? “Na nossa pesquisa, ela é amostral, a gente ouviu mais de oito mil escolas. Ela tem representatividade nacional, tanto para escolas públicas quanto privadas. E deu que 92% das escolas já implementam a lei. Isso significa que é uma lei que pegou. É uma lei recente, com pouco mais de um ano da promulgação dela e ela tem funcionado. Claro que em níveis diferentes. Tem algumas escolas que fazem guarda do celular antes da entrada na sala de aula. Tem outras que deixam o aluno ficar com o celular na mochila. Já havia um consenso – a sociedade, os professores, os pais, já percebiam que era necessário algum tipo de restrição do uso indiscriminado dos celulares nas escolas. Porque isso estava tirando a atenção dos estudantes. Estava prejudicando o desempenho deles nas aulas e piorando a saúde mental mesmo durante a escola. E a escola tem que ser um lugar sagrado, protegido, para que a gente garanta que seja um espaço de socialização, de aprendizagem e que não seja do uso equivocado dos celulares.”
– Há dados sobre a aprendizagem dos estudantes? Vocês conseguiram medir se houve impacto no desempenho deles? Caso ainda não, há intenção de realizar algum estudo ou avaliação para mensurar esse impacto? “Um ano da lei ainda é um período muito curto para atribuir efeitos sobre a aprendizagem. O que essa pesquisa mostra são as percepções dos gestores escolares sobre a implementação da lei e os efeitos no cotidiano escolar. Então, são efeitos mais de curto prazo, em termos de comportamento dos estudantes: atenção, saúde mental, socialização, participação nas atividades. Mas a gente ainda não consegue medir os efeitos na aprendizagem. Para avaliar impactos na aprendizagem, a gente precisa acompanhar a implementação da lei ao longo de um tempo maior. Eu acho que nos próximos anos a gente vai conseguir fazer essa comparação de antes e depois da lei.” As informações são do jornal A Tarde.
