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Dívida externa do Brasil bate recorde, aproxima-se de US$ 400 bilhões e reduz folga das reservas

A dívida externa cresce sem interrupção desde 2023, acumulando nesse período um aumento de 24,4%. (Foto: EBC)

Aproximando-se da casa dos US$ 400 bilhões, a dívida externa alcançou o valor mais alto da história, fazendo das reservas internacionais um cobertor curto ao endividamento do Brasil com o resto do mundo. Dados divulgados na semana passada pelo Banco Central (BC) mostram que a dívida externa, na soma de setor público, bancos e empresas, chegou aos US$ 397,5 bilhões em janeiro, uma cifra inédita em 56 anos de estatísticas.

Desse montante, o governo geral (governo federal, governos estaduais e prefeituras) responde por 21,7% (US$ 86,5 bi); o Banco Central, 4,7% (US$ 18,6 bi); bancos, 40,1% (US$ 159,4 bi); e outros setores, 33,5% (US$ 133 bi).

A dívida externa cresce sem interrupção desde 2023, acumulando nesse período um aumento de 24,4%. A situação, conforme analistas, ainda não preocupa, mas precisa ser monitorada com atenção, pois pode virar uma vulnerabilidade se o Brasil tiver adiante novos choques externos.

O País segue com mais dólares em reserva do que dívidas no exterior. No entanto, essa margem de segurança encolheu para o menor nível desde que, há 19 anos, o Brasil passou à condição de credor internacional. Saindo de um saldo que, há uma década, passava de US$ 67 bilhões, a sobra das reservas internacionais mais os créditos brasileiros no exterior caiu para menos de US$ 10 bilhões após descontadas as dívidas.

Na avaliação de economistas consultados pelo Estadão/Broadcast, é saudável que o Brasil esteja aproveitando a onda de diversificação dos investimentos globais para ampliar a base de credores e buscar melhores condições de financiamento no mercado internacional. Isso pode se tornar, porém, um problema em um cenário de escassez de dólares e de déficits frequentes nas transações com o exterior.

“Não vemos um sinal de desequilíbrio iminente ou de insustentabilidade no curto prazo. Mas esse aumento da dívida merece atenção. A cobertura das reservas internacionais e de outros ativos externos, embora continue confortável, vem caindo”, comenta Iana Ferrão, economista do BTG Pactual.

Com a economia aquecida, acompanhada por mudanças no consumo — por exemplo, gastos altos dos brasileiros com assinaturas de plataformas de streaming —, o déficit das transações correntes com o exterior saltou de US$ 27,1 bilhões, em 2023, para US$ 69 bilhões no ano passado. Essa conta não é mais financiada com a folga de antes pelos investimentos estrangeiros diretos (US$ 77,7 bilhões em 2025), tornando por vezes necessário, como aconteceu em alguns meses dos últimos dois anos, usar dólares das reservas para pagar parte do déficit.

No atual mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, as reservas, com crescimento de 12,2%, não acompanharam o avanço duas vezes maior (24,4%) da dívida externa. Isso aconteceu porque o Banco Central teve que vender mais dólares, especialmente em dezembro de 2024, na maior intervenção da história do regime de flutuação cambial em meio ao estresse do mercado com a política fiscal.

As contas externas, que pareciam não ser mais um problema da economia brasileira, voltaram a chamar a atenção do mercado. O quadro, apesar disso, não é tido como crítico tanto por economistas quanto pelas agências de rating. Primeiro, porque as reservas são três vezes maiores do que as dívidas externas a vencer no curto prazo: US$ 119,8 bilhões.

Segundo, porque a exposição do setor público é muito baixa. Embora, na conversão para reais, a dívida externa do governo federal tenha aumentado em mais de 50% durante o governo atual, passando de R$ 1 trilhão, 72% do montante são títulos em reais negociados no mercado doméstico. Quando estão nas mãos de investidores estrangeiros, esses títulos são classificados como dívida externa pelo BC.

Os dados do Tesouro Nacional, atualizados também nesta semana com valores relativos a janeiro, mostram que quando se trata de dívida emitida ou contratada no mercado internacional — exposta, portanto, ao risco cambial —, a parcela no total da dívida pública federal é de apenas 3,6%.

Mesmo que as captações do Tesouro no exterior tenham alcançado o maior volume de recursos em 20 anos — US$ 10,8 bilhões em 2025 —, os vencimentos e resgates são ainda maiores. Com isso, e também por conta da apreciação do real, o estoque da dívida em moeda estrangeira do governo federal caiu 11% se comparado ao nível de dezembro de 2024, para R$ 310,6 bilhões no mês passado.

Em 2025, a diferença entre as reservas e a dívida externa ficou abaixo de R$ 10 bilhões.

Somando tudo, três quartos da dívida externa do Brasil estão no setor privado, sobretudo em bancos, maiores responsáveis pela alta do endividamento do País com o exterior.

A dívida dos bancos subiu 32% do ano passado para cá, bem mais do que o aumento de 7,7% registrado no setor público, incluindo, além do governo federal, Estados e municípios.

Dívidas de empresas não representam um risco soberano direto e costumam ter hedge (proteção) natural, seja via exportações ou por outras fontes de receitas em moeda estrangeira. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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