O dólar fechou em queda nessa terça-feira (6), recuando 0,49%, cotado a R$ 4,97. A última vez que a moeda norte-americana ficou abaixo desse nível havia sido em 18 de maio deste ano. O Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira (B3), também encerrou em baixa, após a forte valorização da véspera.
A continuidade da queda do dólar veio após o recuo de 4,11% registrado na véspera (5), primeiro pregão após o primeiro turno das eleições, quando a moeda encerrou a R$ 5,001, na maior queda intradiária desde 2018, quando recuou 5,50% em uma única sessão.
O movimento ocorreu com os investidores ainda repercutindo o resultado do primeiro turno da eleição presidencial, que terminou com o senador Flávio Bolsonaro (PL) à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A perda de força do dólar também foi observada em relação a outras moedas. O índice DXY, que mede o desempenho da moeda americana ante uma cesta de seis moedas fortes, recuou 0,31% nessa terça.
A Bolsa fechou em queda de 0,54%, aos 205.783 pontos, em um movimento de realização de lucros após a forte valorização da véspera. Na segunda-feira, o Ibovespa subiu 7,70%, aos 206.911 pontos, no maior patamar da história, em termos reais e nominais.
No ano, a queda da moeda americana é de cerca de 9%, enquanto a alta da Bolsa é de 28%.
Para Matheus Spiess, estrategista da Empiricus Research, o movimento desta terça é uma correção natural após a forte alta da véspera, com investidores realizando parte dos lucros e ajustando posições. Segundo ele, o mercado deve continuar reagindo às pesquisas eleitorais e ao noticiário político até o segundo turno, em um movimento que tende a alternar altas e correções.
Willian Queiroz, sócio e advisor da Blue3 Investimentos, também avalia que o recuo é um movimento de ajuste após a valorização expressiva da segunda-feira. Segundo ele, o mercado deve acompanhar a evolução das campanhas e as alianças políticas para o segundo turno, que podem continuar influenciando os preços dos ativos brasileiros.
Entre as ações que pressionaram o índice estiveram as do Banco do Brasil, que fecharam em queda de 6,57%, a R$ 24,60. O movimento ocorreu após o JPMorgan reduzir a recomendação dos papéis do banco de neutro para abaixo da média, com preço-alvo de R$ 23 para o fim de 2027. O valor representa uma potencial queda de 13% em relação ao fechamento de segunda-feira, quando a ação encerrou a R$ 26,33.
Entre os motivos apontados pelo banco está uma perspectiva mais difícil para a qualidade dos ativos e a inadimplência no agronegócio, diante dos dados de julho e agosto, dos riscos climáticos remanescentes do El Niño e da pressão do câmbio.
O JPMorgan também avalia que a queda dos juros pode pressionar a margem financeira líquida do Banco do Brasil. Embora taxas menores favoreçam a inadimplência de forma geral, o banco tem baixo custo de captação e excesso de liquidez em sua base de depósitos, o que faz com que se beneficie proporcionalmente mais de um cenário de juros elevados.
Os juros futuros continuaram repercutindo o resultado eleitoral, após registrarem forte baixa na segunda-feira. Às 17h09, a taxa para janeiro de 2028 estava em 12,590%, queda de 0,07 ponto percentual, enquanto a taxa para janeiro de 2035 estava em 12,710%, recuo de 0,08 ponto percentual.
Leonardo Mendes, economista e consultor financeiro da Manchester Investimentos, diz que a abertura inicialmente positiva desta terça mostrou a continuidade da reprecificação dos ativos brasileiros, mas em intensidade menor após o movimento excepcional da véspera.
“Na minha leitura, o ponto mais importante agora é que o mercado começa a sair da reação imediata ao resultado eleitoral e passa a tentar precificar o que pode vir depois. A composição do Congresso, a sinalização fiscal e, principalmente, os nomes e propostas econômicas que surgirem ao longo do segundo turno devem ganhar cada vez mais peso”, afirma.
A reação dos mercados ao resultado do primeiro turno refletiu a expectativa de alternância de poder e de uma condução fiscal mais sólida, na avaliação de investidores. Esse cenário reduz a percepção de risco sobre os ativos brasileiros e aumenta o otimismo entre analistas.
Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno na liderança, com 47,03% dos votos, ante 45,16% de Lula. Os dois disputarão o segundo turno, marcado para o próximo dia 25.
Para William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, a avaliação predominante entre os investidores é de uma possível mudança em direção a uma política mais à direita e potencialmente mais alinhada a uma agenda econômica considerada favorável pelo mercado. Entre os pontos destacados estão menor intervenção do Estado na economia, maior protagonismo da iniciativa privada e atenção à questão fiscal.
Nesse cenário, os ativos brasileiros passam a incorporar a expectativa de que o novo Congresso e o novo Senado, além de uma eventual mudança no Executivo, possam favorecer pautas econômicas mais bem recebidas pelo mercado. Essa perspectiva ajuda a explicar tanto a forte alta da Bolsa quanto a valorização do real observadas na véspera.
No exterior, os investidores voltaram a acompanhar os preços do petróleo, que, às 17h11, avançavam 0,72%, a US$ 101, diante de novos ataques dos houthis, grupo do Iêmen aliado do Irã, a aeroportos da Arábia Saudita. A commodity passou grande parte do dia no território negativo e chegou a US$ 97,09, queda de 3,22%, na mínima da sessão. As informações são do jornal Folha de S.Paulo.
