O mercado local foi afetado pela forte aversão aos riscos, em dia no qual o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) voltou a sinalizar um aperto nas medidas de estímulos, enquanto por aqui, o risco de rompimento do teto de gastos continua preocupando o investidor. Em resposta, nesta quarta-feira (18), a Bolsa brasileira (B3) virou o sinal e fechou com queda de 1,07%, aos 116.642,62 pontos, enquanto dólar disparou 1,99%, cotado a R$ 5,3749 — no maior patamar desde 4 de maio.
Operadores não identificaram um gatilho específico para a arrancada da moeda americana nesta quarta, que já acumula alta de 3,17% em agosto. Mas citaram o mal-estar com o adiamento da reforma do Imposto de Renda na noite de terça (17). Teme-se que o texto da reforma, que já desagradava no início, seja modificado ainda mais para satisfazer demandas de Estados e municípios, resultando, no fim, em perda de arrecadação.
O desconforto com as contas públicas fez a moeda americana operar em alta firme já pela manhã, alcançando a casa de R$ 5,35. O movimento era acentuado pelo tombo das commodities no mercado internacional, diante da probabilidade de a China cortar drasticamente a produção de aço. Operadores notaram também sinais de movimentos especulativos de investidores à espera de uma intervenção do Banco Central, que acabou não acontecendo.
Houve certo alívio no meio da tarde, com o dólar passando a ser negociado no nível de R$ 5,33, na esteira da perda de força momentânea da moeda americana no exterior. Mas o caldo voltou a entornar na reta final do pregão, após a divulgação da ata do Fed, que voltou a sinalizar para um aperto nas medidas de estímulos adotadas na pandemia.
Embora tenha repetido a avaliação de que a alta da inflação têm efeitos transitórios, o Fed confirmou que o debate sobre o início da redução de compra mensal de títulos públicos, o chamado ‘tapering’, ainda neste ano. Foi o que bastou para uma rodada mais acentuada de deterioração dos ativos domésticos.
Em audiência no Congresso Nacional, o secretário do Orçamento Federal, Ariosto Culau, disse que, sem o parcelamento dos precatórios, todos os programas do governo em 2022 estarão comprometidos. Culau argumentou que a PEC dos Precatórios é uma forma de manter o teto de gastos sem sacrificar programas meritórios. “Não estamos propondo que o teto seja rompido, parcelar precatórios torna a regra efetiva”, afirmou.
Bolsa
O dia negativo no mercado brasileiro seguiu o mau humor de Nova York, com Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq com quedas de 1,08%, 1,07% e 0,89% cada. Por aqui, o Ibovespa acumula baixa de 2,00% após a recente correção, o que coloca agora as perdas da semana a 3,76% e as do mês a 4,23%, acima das de julho, quando havia interrompido a recuperação de março a junho.
“A piora segue ligada (também) a questões politicas internas. A crise institucional, devida a atritos entre Bolsonaro e STF, vai seguir incomodando. A queixa registrada contra o Aras (procurador-geral da República, Augusto Aras), acusado de ser omisso em relação à arbitrariedade de Bolsonaro, foi mais um motivo para pressão no câmbio hoje”, diz Cristiane Quartaroli, economista do Banco Ourinvest.
Com tantos fatores negativos pesando sobre o humor dos investidores, as perdas acabaram se distribuindo por empresas e setores na B3 ao longo da tarde, sem poupar as ações de commodities, com Vale ON em queda de 3,36% e Petrobras, de 1,19%. Entre os bancos, Bradesco caiu 1,37% e Santander, 0,79%. O setor de siderurgia também foi afetado, com Usiminas em baixa de 4,73 e CSN, de 2,31%. No lado oposto, Cogna subiu 4,52% e Braskem, 4,21%.
