O vento minuano sucumbiu a mais um fim de semana chuvoso. A primavera já chegou mas ainda se espreguiça. O fim do ano se avizinha, mas 2027 é uma incógnita. Ele saiu da esquina democrática a passo e sem rumo.
Por duas oportunidades assistiu perplexo manifestações apaixonadas sobre verdades únicas. Subiu a Borges de Medeiros em direção a rua dos Antiquários. Levava na mão a lanterna que Diógenes havia emprestado. Procurava luz e o caminho certo. Mas ela piscava, as pilhas indicavam exaustão.
Entre uma vitrine e outra, comprou um elmo, uma armadura e uma lança. Na praça da Cel Genuíno negociou com um carroceiro um matungo. De ordenança, seu Sancho Pança, levou junto o guri da sinaleira que nem balas conseguia mais vender. Tempos difíceis. Lá se foi atrás dos moinhos, inimigos fígadais que precisavam ser enfrentados, utopias que a vida impõe.
Sim, ia vencê-los todos, pouco importava o tamanho, a envergadura, que estivessem protegidos por guardas, por servidores, poetas, militares, interesses políticos, religiosos, do poder econômico, enfim. Ele era a razão plena e, como tal, nada o abalava. Os governos de hoje e de ontem balançam pela insegurança que transmitem.
E o que virá? Mas a democracia, custe o que custar, vai prevalecer. Junto, à liberdade de expressão, o pleno emprego, a dignidade das pessoas, a saúde, a educação, a segurança, o bem comum. Um menino, um matungo, uma lança com a bandeira do Brasil e ele, solitário povo. Então a lanterna, sua proa, apagou.
As pilhas bem tinham avisado. Sem luz, o povo ouve os compromissos de quem não soube fazer e tem dúvidas quanto ao outro, linha oposta, mas não diferente. As redes sociais bombam, em cada torpedo, um lado avilta o outro. Consagramos as absurdas fake news, verdades inverídicas.
Nem a padroeira do país escapou. Há poucos dias da eleição o povo se mantém em dúvida, sem rumo e novamente se olha e se questiona: vamos tomar o mesmo caminho de Dom Quixote? Não, o povo precisa mais, quer mais, merece mais. Em algum momento a lanterna vai acender. O tempo é sábio, haverá luz.
*Eduardo Battaglia Krause
Advogado e escritor.
