Os Estados Unidos e o Brasil foram aliados instáveis na maior parte do tempo. Mas os eleitores brasileiros podem ter posto fim a essa dinâmica quando elegeram como próximo presidente Jair Bolsonaro, um deputado de direita que é declaradamente pró-EUA e notavelmente parecido com o presidente americano, Donald Trump, em
temperamento, táticas e estilo.
“Talvez estejamos à beira de uma era dourada de relações”, disse Fernando Cutz, um ex-funcionário de alto escalão da Casa Branca que trabalhou em política latino-americana nos governos Trump e Obama. “Trump e Bolsonaro realmente vão se entender. Suas personalidades são quase idênticas e suas opiniões políticas, muito
semelhantes.”
O entusiasmo de Bolsonaro por laços mais estreitos com os EUA é um dos sinais mais claros de que a política externa do Brasil está prestes a passar por mudanças profundas.
Como candidato, o presidente eleito denunciou as alianças e a política externa do Partido dos Trabalhadores (PT), de esquerda, que governou o Brasil de 2003 a 2016. Nesse período, o País promoveu relações comerciais mais próximas com a China, defendeu o governo autoritário de Cuba e foi um pilar de alianças multilaterais que excluíam os EUA.
Bolsonaro ainda não definiu uma visão detalhada da política externa, mas recentemente revelou sua escolha para ministro das Relações Exteriores: Ernesto Araújo, um diplomata de nível médio que chefia o departamento de EUA e Canadá no Ministério das Relações Exteriores e compartilha sua admiração por Trump. Em seu blog, Araújo chamou a mudança climática de trama marxista e elogiou Trump por combater o movimento de “globalismo” liderado pela China.
Em entrevistas recentes, Bolsonaro sugeriu que o Brasil poderá transferir sua embaixada em Israel de Tel Aviv para Jerusalém, seguindo medida semelhante de Trump, e levantou a possibilidade de cortar relações diplomáticas com Cuba.
A prioridade de sua equipe, porém, é claramente construir uma parceria forte com o governo Trump.
Representantes chaves iniciaram uma ofensiva de charme que parece destinada a polir a imagem internacional de Bolsonaro, que como deputado ficou famoso por insultar as minorias e elogiar a antiga ditadura militar do Brasil.
“Nosso futuro presidente foi acusado de muitas coisas, mas posso garantir a todos vocês que ele é um democrata”, disse à Fox News em uma entrevista recente o companheiro de chapa de Bolsonaro, general Hamilton Mourão. Ele manifestou confiança em que as relações entre os EUA e o Brasil, os maiores países das Américas, “serão mais firmes durante esse período”.
Um dos filhos do presidente eleito, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, pretende viajar aos EUA em breve, para o que ele chamou de “esforço preliminar de contato para gerar boa vontade entre o Brasil e os EUA, dois países amigos que se afastaram nos últimos anos por motivos ideológicos”.
O novo presidente brasileiro e seu filho certamente terão uma recepção calorosa em Washington. Jair Bolsonaro e Trump chegaram à vitória com campanhas insurgentes nas redes sociais que visaram o establishment político. A
Ambos foram inicialmente considerados por analistas políticos como inexperientes e rudes demais para ir em frente. E ambos parecem gostar de intensificar, em vez de diluir, as disputas políticas.
O assessor de segurança nacional de Trump, John Bolton, aplaudiu recentemente a eleição de Bolsonaro, que ele chamou de líder “de mentalidade semelhante”. O governo Trump manifestou esperança de que uma série de novos chefes de Estado conservadores na América Latina ajudem os EUA a minar os governos de esquerda de Cuba, Venezuela e Nicarágua, que Bolton chamou de “troica da tirania neste hemisfério”.
A ascensão de Bolsonaro ocorre enquanto a colcha de retalhos de governos de esquerda criada na virada do século, em uma aposta para acabar com a hegemonia de Washington na região, se desintegrou amplamente. A Venezuela, que foi um eixo chave dessa rede, tornou-se um pária regional sob o presidente Nicolás Maduro, cuja má administração econômica levou a uma aguda escassez de alimentos e remédios.
A crise humanitária venezuelana, que provocou o êxodo de mais de 3 milhões de pessoas, provavelmente estará no topo da agenda com os EUA quando Bolsonaro assumir o cargo.
“Se for instigado pelos EUA, o Brasil poderá assumir uma posição pública mais forte contra o regime Maduro, usando o influxo de refugiados como desculpa para agir”, disse Jana Nelson, antiga autoridade do Departamento de Estado que trabalhou em política para o Brasil. “O principal desafio seria convencer os outros países latino-americanos a trabalhar com o governo Bolsonaro, cuja reputação como líder duro, politicamente incorreto, o precede.”
