Ícone do site Jornal O Sul

Donos e executivos do maior frigorífico do País revelaram um festival de propinas para políticos de diferentes partidos, em troca de facilidades

Despesa total com propinas da empresa é estimada em 600 milhões de reais. (Foto: Reprodução)

A divulgação dos vídeos da delação premiada do empresário Joesley Batista e de outros executivos do grupo frigorífico JBS/Friboi revelou a “compra” de políticos dos mais diversos partidos, em troca do atendimento aos interesses da empresa em instâncias como o Congresso Nacional.

Estima-se que as revelações devam atingir em cheio ao menos três presidentes ou ex-presidentes da República, 16 governadores, 28 senadores, 167 deputados federais, 179 estaduais e 1.929 candidatos a cargos eletivos. A conta total desembolsada pelo JBS é salgada: 600 milhões de reais, apesar de muitos avaliarem que os lucros decorrentes das operações ilícitas tenham propiciado à empresa um montante bem maior.

As gravações complicaram, sobretudo, a situação do presidente Michel Temer, ao revelar supostas negociações de propina com o peemedebista, inclusive neste ano. No inquérito aberto com a autorização do STF (Supremo Tribunal Federal), o chefe do Palácio do Planalto será investigado por corrupção passiva, obstrução da Justiça e organização criminosa.

Um dos executivos da empresa – uma das maiores do mundo no segmento de carnes – contou que, em 2014, mandou entregar, em uma caixa de sapatos, 1 milhão de reais a Temer (que então ocupava o cargo de vice-presidente da República e concorria à reeleição na chapa de Dilma Rousseff).

Em seu acordo de colaboração com a Operação Lava-Jato, Joesley também relatou ter pago propina aos ex-presidentes Dilma e Luiz Inácio Lula da Silva no exterior. Embora não soubesse detalhar se o dinheiro tenha sido destinado aos governos, às campanhas eleitorais ou mesmo aos próprios petistas, ele assegurou a existência de 150 milhões de dólares depositados em contas lá fora, com essa finalidade.

A ex-mandatária do Executivo também aparece nas delações da JBS referentes ao processo que levou ao seu afastamento do cargo, em 2016: em seu depoimento ao MPF (Ministério Público Federal), o delator apontou o pagamento de suborno a pelo menos cinco deputados para que votassem contra o impeachment da petista. Os senadores tucanos Aécio Neves (MG) e José Serra (SP), por sua vez, foram mencionados como destinatários de propina via caixa 2.

Investigação

Documentos que estavam sob sigilo e foram liberados pelo STF revelam que Temer será investigado por suspeita de envolvimento em pelo menos três crimes: corrupção passiva, obstrução de Justiça e organização criminosa. A informação está expressa no pedido de abertura de inquérito feito pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot.

O ministro Luiz Edson Fachin, relator da Lava-Jato na Corte, considerou os indícios consistentes e autorizou a abertura de investigação contra o chefe do Palácio do Planalto. “Os elementos de prova também revelam que alguns políticos continuam a utilizar a estrutura partidária e o cargo para cometerem crimes, em prejuízo do Estado e da sociedade”, frisou Janot. “Com o estabelecimento de tarefas definidas, o núcleo político promove interações diversas com agentes econômicos, com o objetivo de obter vantagens ilícitas, por meio da prática de crimes, sobretudo com corrupção. Há, pois, também o indicativo da prática do delito organização criminosa previsto na lei 12.850/2013.”

Em conversas reservadas, o procurador-geral considerou estarrecedoras as negociações identificadas em diálogos de Temer e do agora senador afastado Aécio Neves (PSDB-MG) com Joesley. Para ele, o mais surpreendente é que as conversas sobre pagamento de propina, venda de cargos estratégicos no governo e silêncio de envolvidos em casos de corrupção ainda aconteçam depois de três anos de Lava-Jato e da forte mobilização da sociedade contra desvios de dinheiro.

Sair da versão mobile