Integrantes das duas maiores facções criminosas do Brasil, Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV), travam uma disputa em cidades de Mato Grosso do Sul. O Estado registra uma disparada no número de mortes. Entre janeiro e agosto, foram 313 homicídios dolosos, alta de 34% em relação ao mesmo período do ano passado. Nenhum outro Estado brasileiro teve um aumento tão grande de assassinatos. O Ministério Público calcula que do total de mortes no período, cerca de cem tiveram relação direta com o conflito.
O pano de fundo dessa onda de ataques, que tem deixado corpos cravejados de balas nas ruas ou dentro das casas, é uma disputa pelo controle dos acessos da fronteira de Mato Grosso do Sul com os territórios do Paraguai e da Bolívia, por onde são transportadas regularmente cargas de cocaína para o Brasil.
A droga continua sendo a moeda forte do PCC e do CV – especialmente devido a negociações que envolvem remessas de toneladas da substância para a Europa. Os dois grupos foram incluídos em junho na lista do Departamento de Estado dos EUA de organizações estrangeiras terroristas.
A sequência de mortes no Estado chama atenção para um problema complexo que nunca nenhum governo conseguiu até agora equacionar como tornar as fronteiras do país mais vigiadas e protegidas a ponto de reduzir drasticamente a quantidade de cocaína que entra no Brasil.
As campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva e de Flávio Bolsonaro prometem mudanças no combate à criminalidade, mas ainda não deram detalhes sobre como pretendem encarar esse tema.
Flávio, em seu programa de governo, fala em criar um “paredão na fronteira” com militares e armas de guerra. O programa de Lula cita o fortalecimento da vigilância e a cooperação internacional para destruir rotas de tráfico.
O Brasil faz limite com dez países, mas são as fronteiras com quatro deles que inspiram especial preocupação. Colômbia, Peru e Bolívia, pelo fato de serem os produtores de praticamente toda a cocaína que circula pelo mundo, e Paraguai, por ser uma espécie de centro de distribuição de parte da cocaína que chega ao Brasil.
Apesar de diversificarem seus negócios, o grosso dos recursos auferidos por lideranças das duas facções continua saindo da venda de cocaína, especialmente quando enviada para o exterior.
“O narcotráfico internacional, sobretudo a remessa de cocaína para a Europa, ainda é o primeiro negócio do PCC”, diz o promotor de Justiça do Ministério Público de São Paulo, Lincoln Gakiya, com anos de experiência em ações contra o crime organizado. “O PCC não é único, mas é a principal organização dedicada ao tráfico de cocaína passando pelo Brasil rumo a Europa”, diz ele. O CV também atua como parceiro de grupos no exterior, mas num volume menor.
O dinheiro que os dois grupos e outros obtêm com o narcotráfico internacional tem sido lavado de diversas maneiras. É investido em empresas que têm operação e faturamento, como forma de misturar capital lícito e ilícito, como empresas de ônibus, de construção e postos de combustível. Ou é escondido em fundos de investimento que por anos desfrutaram de pouca regulação.
“O tráfico para a Europa retroalimenta outras formas de negócios e a inserção do PCC no mercado formal”, diz o promotor.
Para manterem os negócios fluindo, redes criminosas precisam garantir a operação de rotas terrestres, fluviais e aéreas pelas quais são transportadas toneladas da droga para o Brasil todos os anos. Por isso, criminosos do PCC e do CV e de outros grupos têm explorado e buscado controlar pontos chaves das porosas fronteiras do Amazonas, Acre, Rondônia, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. As disputas por esse controle dos acessos deixam, muitas vezes, um rastro de violência e morte.
É o que está acontecendo em Mato Grosso do Sul. “Desde o fim do ano passado a gente tem visto aqui uma guerra muito intensa”, disse Felipe Almeida Marques, promotor de Justiça e integrante do centro de inteligência do Ministério Público em Campo Grande. As informações são do jornal Valor Econômico.
