O russo Dima Tutkov se sente seguro em uma ilha artificial em Dubai, à beira do Golfo Pérsico. Lá, não houve nenhuma das atitudes antirrussas das quais ele ouve falar na Europa. Não há estradas esburacadas ou pessoas em situação de rua, como em Los Angeles. Sua agência de publicidade gera grandes lucros na Rússia, e ele não precisa se preocupar em ser convocado para lutar na Ucrânia.
“Dubai é muito mais livre, em todos os sentidos”, afirmou, vestindo uma camiseta de grife com rasgos elaborados em um café que acabou de abrir na cidade. “Somos independentes da Rússia (…) Isso é muito importante”, disse ele, cujos filhos agora estudam em uma escola britânica.
Um ano depois da enxurrada de sanções ocidentais impostas à Rússia em retaliação à guerra da Ucrânia, os impactos das medidas ficam aquém do esperado. Os ricos russos continuam ricos, e em Dubai, a maior cidade dos Emirados Árabes Unidos, encontraram um porto seguro para os tempos de guerra.
Entre os calçadões à beira-mar da cidade, shoppings palaciais e ruas sem saída que lembram subúrbios americanos, o russo torna-se um idioma comum. Os oligarcas socializam em resorts exclusivos, e restaurantes de São Petersburgo e Moscou correm contra o relógio para abrir filiais. Empresários como Tutkov gerenciam seus negócios de Dubai – e abrem novos empreendimentos.
A nova diáspora russa engloba um espectro que vai de multibilionários punidos pelas sanções ocidentais a funcionários do setor de tecnologia que fugiram da mobilização militar imposta pelo presidente Vladimir Putin em setembro do ano passado. De certa forma, no entanto, compartilham as mesmas razões para estarem no Oriente Médio: os Emirados mantiveram voos diretos para a Rússia, adotam uma postura neutra frente à invasão na Ucrânia e, afirmam os novos moradores, não demonstram a mesma hostilidade que os russos percebem na Ucrânia.
“Por que fazer negócios em lugares que não são amigáveis com você?”, indagou Tamara Bigaeva, que recentemente abriu em Dubai uma filial de dois andares de sua clínica de estética, onde já recebe clientes antigos. “Na Europa, eles claramente não querem nos ver.”
De fato, um dos maiores atrativos de Dubai é sua característica apolítica, segundo entrevistas com russos que elegeram a cidade como sua nova casa. Ao contrário da Europa Ocidental, não há bandeiras ucranianas hasteadas em espaços públicos ou eventos de solidariedade. A guerra parece algo distante.
E, de qualquer jeito, qualquer um em Dubai com sentimentos anti-Rússia provavelmente os guardaria para si mesmos. Protestos são efetivamente ilegais pela monarquia autoritária do país, e a liberdade de se reunir para tais fins é severamente limitada.
A presença de russos ricos em Dubai em uma época na qual foram praticamente cortados do Ocidente mostra que Putin tem conseguido manter o contrato social que é essencial para o apoio doméstico. Em troca de lealdade, aqueles próximos ao regime podem acumular grandes fortunas.
Na verdade, uma cientista política, Ekatarina Schulmann, disse que o chefe do Kremlin vem sinalizando para empresários que está pronto para remover ainda mais obstáculos para o enriquecimento. Uma lei recente, por exemplo, isenta parlamentares de precisarem divulgar sua renda e suas propriedades.
“Sim, nos cortamos você do Primeiro Mundo, mas as coisas não irão piorar mais”, disse Schulmann, descrevendo como entende o contrato revisado de Putin com as elites. “Primeiramente, há muitos outros países que são amigáveis conosco. Em segundo lugar, você terá muitas oportunidades de ficar ainda mais rico, e não vamos mais processar você por corrupção.”
Publicamente, Putin tem feito apelos para que as elites russas reorientem suas vidas e seus investimentos dentro da Rússia. Mas os ricos que se mudaram para Dubai têm outras ideias.
“Para todos nós, essa é uma ilha de segurança por um certo período de tempo”, disse Anatoly Kamenskikh, empreiteiro russo que se gaba de sua equipe ter vendido o equivalente a US$ 300 milhões (R$ 1,57 bilhão) em propriedades em Dubai apenas no ano passado, em sua maioria para cidadãos russos. “Todos estão tentando estacionar suas propriedades em outros lugares.”
Entre aqueles que encontraram um porto seguro em Dubai no ano passado está a popstar russa Daria Zoteyeva, a cantora do hit atualmente no topo das paradas. Ela agora vive em um ainda não terminado condomínio de luxo no deserto. De noite, uma luz distante emana do Burj Khalifa, o prédio mais alto do mundo.
Para fazer música, disse Zoteyeva em um banco no acostamento, “é necessário estar de bom humor”. Dubai, ela disse, é um “lugar solar” onde a guerra “não te afeta”. Ela, contudo, se recusa a tomar um posicionamento sobre o conflito, referindo-se a ele como “toda essa situação”.
“É para evitar deixar que a minha audiência vá embora e para fazer dinheiro”, disse ela, explicando seu silêncio. “Porque é muito dinheiro. Muito dinheiro.” As informações são do jornal The New York Times.
