O presidente Michel Temer declarou na última quinta-feira (27) que o País está “virando a página da crise” por conta do “dever de casa” do governo. O discurso é repetido. Em outra declaração, no início do mês, durante a cúpula do G20, o mandatário afirmou que a “crise econômica no Brasil não existe”.
Os números oficiais indicam, sim, ligeira melhora em alguns indicadores, por exemplo, nos de emprego. Mas a recuperação é lenta, segundo especialistas. Mais do que isso, se o presidente olhasse para fora das janelas do Palácio do Jaburu, onde vive em Brasília, verificaria empresas baixando as portas e filas e mais filas de brasileiros desesperados buscando trabalho para sobreviver. E quando encontram, as vagas são precárias, com salários baixos, sem registro.
A taxa de desocupação no Brasil diminuiu de 13,7% no primeiro trimestre deste ano para 13% no segundo. Mas o índice permanece maior em relação ao mesmo período de 2016, em que abril, maio e junho indicavam 11,3%, segundo dados divulgados pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
“De forma alguma o cenário está favorável quando falamos de crise. Há sinais para a população ocupada, mas enquanto o mercado se movimenta, há declínio do emprego com carteira”, disse Cimar Azeredo, coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE.
A redução de 0,7%, de acordo com ele, mostra uma queda expressiva no contingente de pessoas procurando emprego com o aumento de 1,3 milhão de postos. No entanto, nesse período, o número de pessoas que migraram para a informalidade cresceu 4,3% no trimestre e subiu 5,4% em relação ao ano passado, atingindo, inclusive, os setores que estão apresentando aumento no índice de ocupação, como a indústria, com o acréscimo de 375 mil pessoas. “Chegamos ao nível mais baixo da carteira assinada.”
Para a pesquisadora da Unicamp Marilane Teixeira, “estamos gerando empregos de baixa qualificação, o que não se sustenta a longo prazo”.
O comércio, por exemplo, é o setor que mais emprega, mas o saldo de desligamentos (1,9 milhões) é maior em relação às admissões (1,7 milhões) de janeiro a junho deste ano, segundo o Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados).
Em relação ao fechamento de estabelecimentos varejistas, houve redução de 37,6 mil no primeiro semestre de 2016 para 9,9 mil no mesmo período deste ano. E o volume de vendas foi de -2,7% para 2,4%, de acordo com a Confederação Nacional do Comércio.
Para Marilane, essa diferença entre movimentação da economia no comércio e o desemprego no setor é resultado da baixa exigência de qualificação profissional que aumenta a rotatividade de vínculo empregatício.
“Não há exigências de treinamento e capacitação e, portanto, podem ser demitidos com maior facilidade. Por outro lado, tem a racionalidade econômica, as empresas estão aproveitando a crise para reduzir postos de trabalho”, explicou. (Jeniffer Mendonça/Diário de S. Paulo)
