Os primeiros meses de 2026 foram marcados por um crescimento acelerado das intenções de voto no filho 01 do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A ascensão do senador Flávio Bolsonaro estancou ao alcançar o patamar de vantagem estreita contra seu principal adversário nas eleições de outubro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O cenário se inverteu a partir do caso “Dark Horse”. Mesmo antes do escândalo que abalou a imagem de Flávio, a aprovação ao governo do petista vinha dando sinais de melhora, com reflexos nos índices de intenção de voto – o que também contribuiu para oscilações negativas do pré-candidato do PL à Presidência.
Ao Estadão, especialistas analisaram as rodadas mensais das pesquisas Genial/Quaest, AtlasIntel e Datafolha durante o primeiro semestre (mais detalhes nesta página). Segundo os analistas, o crescimento de Flávio foi impulsionado tanto pela rápida adesão do eleitor bolsonarista quanto pelo momento ruim de Lula na avaliação de governo. Na esteira do “pacote de bondades”, a remontada do presidente deu seus primeiros sinais, ainda sutis, antes da divulgação do áudio de Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro. Eles ponderam, no entanto, que os índices continuam próximos e não apresentam uma tendência capaz de encerrar a disputa.
Enquanto a intenção de voto em Flávio com o caso “Dark Horse” foi baqueada, mas demonstrou-se resiliente, o fôlego de Lula depende de fatores que devem ser consolidados pela pré-campanha do petista, de acordo com os especialistas.
Até dezembro de 2025, mesmo inelegível, Jair Bolsonaro mantinha-se como pré-candidato ao Planalto no ano seguinte. O filho 01 já era especulado como representante da família na eleição presidencial, mas concorria pela indicação contra outros nomes, como a exprimeira-dama Michelle Bolsonaro (PL).
Nos meses seguintes, as pesquisas apontaram para um crescimento acelerado das intenções de voto no senador. Em janeiro, segundo a Genial/Quaest, Lula venceria um segundo turno contra Flávio Bolsonaro por 45% a 38% dos votos, com 17% de votos brancos, nulos ou indecisos. A vantagem de sete pontos porcentuais do petista minguou sucessivamente nas rodadas seguintes. Dois meses depois, em março, o presidente e o senador estavam em empate numérico: 41% de intenções de voto para cada, com 18% de brancos, nulos e indecisos. No mês seguinte, o cenário de empate técnico persistia, mas Flávio já detinha vantagem numérica: 42% dos votos contra 40% de Lula, com 18% de nulos, brancos ou indecisos.
O Datafolha registrou a mesma tendência. O instituto não fez simulações de segundo turno entre Lula e Flávio nos meses de janeiro e fevereiro, mas um comparativo entre dezembro de 2025 e março de 2026 dá noção do crescimento do senador no período.
Em dezembro do ano passado, segundo o Datafolha, Lula venceria um segundo turno contra Flávio Bolsonaro por 51% a 36% dos votos, com 13% de brancos, nulos e indecisos. Três meses depois, a vantagem de Lula foi de quinze para três pontos porcentuais, configurando empate técnico: 46% do presidente contra 43% do senador, com 11% de nulos, brancos e indecisos.
No mês seguinte, Flávio Bolsonaro cresceria ainda mais, passando a deter leve vantagem no empate técnico, com 46% de intenções de voto contra 45% de Lula, com 9% de brancos, nulos e indecisos.
Para Leandro Consentino, cientista político e professor do Insper, o jogo não se encerrou entre os eleitores independentes, campo de batalha mais decisivo da eleição.
O professor relembra que, durante o primeiro semestre, os cenários das pesquisas relacionaram-se com a inclinação do eleitorado independente, que ora esteve mais próximo de Flávio, e, após as revelações envolvendo o filme sobre Jair Bolsonaro e o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, voltou-se para o governo.
“Ninguém cristalizou uma vantagem enorme nem de um lado nem de outro. Isso significa que, de novo, parecemos estar caminhando para uma eleição a ser decidida pelos moderados”, disse.
As pesquisas AtlasIntel apontam que, em dezembro de 2025, Lula venceria Flávio Bolsonaro por 53% a 41% dos votos em um eventual segundo turno, com 6% de brancos, nulos e indecisos. Em fevereiro do ano seguinte, os pré-candidatos estavam em empate numérico, com 46,3% de intenções de voto para cada. Eles seguiram em empate técnico até a pesquisa de abril. Em maio, num levantamento realizado após o áudio de pedido de dinheiro a Vorcaro, Flávio despencou seis pontos porcentuais, afastando-se do rival na sondagem de segundo turno.
O governo federal também era prejudicado pelo avanço das investigações sobre o Banco Master, embora não estivesse implicado no caso. Em março, segundo a AtlasIntel, 39,5% dos entrevistados achavam que os aliados de Lula eram os mais envolvidos no esquema, enquanto 28,3% achavam que os aliados de Bolsonaro tinham mais participação no caso. Esse quadro viria a se inverter dois meses depois, após o caso “Dark Horse”.
A ascensão de Flávio coincide com um momento ruim na avaliação de Lula. De janeiro a abril de 2026, segundo a Genial/Quaest, a desaprovação à gestão federal variou de 49% para 52%.
A partir de abril, por um lado, as pesquisas registravam a desaceleração das intenções de voto em Flávio Bolsonaro. Por outro, o senador já detinha leve vantagem contra Lula, embora o cenário permanecesse embolado. O quadro mudou a partir da divulgação, pelo site Intercept Brasil, de um áudio em que Flávio Bolsonaro pede dinheiro a Daniel Vorcaro para a produção do filme “Dark Horse”, cujo roteiro é inspirado na vida do pai.
A rodada de maio da Genial/Quaest foi publicada horas antes da divulgação do áudio de Flávio a Vorcaro. O levantamento mostra que Lula já vinha apresentando sinais de melhora mesmo antes do abalo que Flávio sofreria após o “Dark Horse”, na esteira do “pacote de bondades”, como são chamadas as medidas em que o governo federal aposta para melhorar sua aprovação a meses das eleições.
Em maio, 50% dos entrevistados pela Genial/Quaest avaliou o Desenrola 2.0 como uma “boa ideia”. No mês seguinte, o índice dos que olham a medida com bons olhos seguiu o mesmo, mas atingiu mais eleitores: o conhecimento do programa passou de 57% para 61% dos entrevistados.
A isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais também surtiu efeito. Segundo a Genial/Quaest, o índice dos que afirmaram que a renda “aumentou significativamente” com a medida subiu de 17% para 23% entre abril e junho. Segundo a pesquisa, o impacto foi mais sentido entre os eleitores com renda familiar de até dois salários mínimos. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
