Pré-candidato à Presidência pelo PL, o senador Flávio Bolsonaro (RJ) intensificou as conversas no partido para a formatação de um programa de governo a ser apresentado nas eleições.
A legenda já vem trabalhando há seis meses em ideias para as diretrizes sobre uma eventual vitória nas urnas. Porém, com a unção de Flávio pelo seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro — que está preso por conta da condenação na trama golpista —, o senador começou a discutir mais diretamente quais delas poderão ser efetivamente incorporadas a um programa.
Não há pressa para finalização desse processo e a orientação é de cautela para evitar situações que possam gerar desgaste político. Uma pessoa próxima à campanha lembra o que ocorreu com Marina Silva em 2014, quando a menção à independência do Banco Central (BC) em seu programa de governo foi usada pelo PT para atingir a candidatura dela contra Dilma Rousseff.
Um dos focos de discussão no grupo que trabalha as propostas de Flávio e que é coordenado pelo senador Rogério Marinho, secretário-geral do PL, é a economia. Alguns conceitos já começaram a ser incorporados em manifestações públicas de Flávio, como uma redução do estado que visaria a reduzir a carga tributária.
O pré-candidato já adotou o slogan de “tesouraço”. A expressão tem sido usada nas conversas cada vez mais frequentes que Flávio tem tido na praça financeira em São Paulo, a chamada Faria Lima.
Em artigo recente ele definiu o termo: “Uma agenda cujo objetivo final é o aumento real da renda, da geração de empregos e dos avanços das condições para empreender no Brasil, viabilizados através da redução dos gastos públicos, dos impostos e da burocracia, o que permitirá a implementação de taxas de juros mais palatáveis”.
A lógica, pelo menos no campo retórico, se assemelha à que perpassou o governo Bolsonaro, quando a economia era comandada pelo ultraliberal Paulo Guedes. A lembrança de reduções de impostos, como o IPI, supostamente viabilizada por um menor ímpeto de gastos, já está sendo incluída nas manifestações do representante oposicionista.
Por outro lado, as medidas mais radicais de contenção de despesas e que teriam maior impacto fiscal, como a desvinculação do salário mínimo dos benefícios sociais, nunca foram adiante naquele período de 2019 a 2022, embora tenham sido discutidas pela equipe econômica de então.
Por ora, o conceito de “tesouraço” ainda está muito genérico, reconhecem pessoas próximas ao senador, e a tendência é que se tente refiná-lo ao longo do tempo, demarcando as diferenças de concepção entre uma agenda de corte liberal contra a lógica da administração petista de um estado que atua mais diretamente na economia.
“Posto Ipiranga”
A lógica, pelo menos no campo retórico, se assemelha à que perpassou o governo de Jair Bolsonaro, quando a economia era comandada pelo ultraliberal Paulo Guedes. Flávio Bolsonaro passou o fim do ano visitando figurões do mercado financeiro, entre eles André Esteves, dono do BTG Pactual. Nos encontros, se comprometeu a anunciar até abril um nome do quilate do ex-ministro da Economia Paulo Guedes para ser o seu “Posto Ipiranga” — expressão eternizada por seu pai, Jair Bolsonaro, na campanha presidencial de 2018, quando designou o aliado para responder tudo por ele na área econômica inspirado em um comercial de TV da rede de postos de gasolina.
Os gestos têm uma razão objetiva: a Faria Lima se mostrou órfã da candidatura ao Planalto do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e é preciso seduzi-la para que não caia no colo de concorrentes. Em dezembro, vale lembrar, a bolsa de valores caiu e o dólar disparou após o anúncio do filho do ex-presidente.
Por ora, as duas grandes estrelas econômicas da Era Bolsonaro não demonstram interesse em voltar para o jogo. Flávio procurou Paulo Guedes em dezembro, mas o ex-ministro reafirmou o desejo de seguir longe da vida pública. Embora já tenha negado publicamente, o ex-presidente do Banco Central (BC) Roberto Campos Neto estava muito mais entusiasmado para virar um homem forte de um futuro governo Tarcísio do que de uma administração de continuidade do clã Bolsonaro.
Há dois nomes na manga de Flávio, de impacto muito menor que Guedes e Campos Neto: Gustavo Montezano, ex-presidente do BNDES, com passagens pelo Opportunity e o próprio BTG Pactual de Esteves; e o economista Adolfo Sachsida, ex-secretário de Política Econômica de Guedes e ex-ministro de Minas e Energia de Bolsonaro. As informações são do jornal O Globo.
